Eu sempre espero o pior de tudo, o que pode ser um defeito ou uma qualidade dependendo do ponto de vista.
Talvez por isso hoje eu posso dizer que meu parto foi infinitamente melhor do que eu imaginava que seria. Na verdade, só poderia ser melhor mesmo, já que na minha cabeça E. atrasaria mais do que duas semanas, eu precisaria de uma indução, passaria dias no hospital esperando o trabalho de parto começar, passaria por horas e mais horas de dores incomensuráveis, não teria forças para ir até o final e terminaria com uma cesárea não planejada seguida por dias de cama em recuperação.
Por mais de uma vez chorei de medo desse cenário. Chorei de medo de não suportar a pressão e a dor. Chorei de medo de que as coisas dessem errado.
Mas ao contrário, quase posso dizer que tive um parto rápido e indolor, pelo menos na medida do possível (porque nem foi tão rápido assim e nem indolor).
Fui para cama na terça-feira irritada com a espera. Cheguei a comentar com I. que tinha certeza absoluta que estava longe da hora de conhecer meu babóg. Ainda com ele abraçado a mim, senti uma primeira contração e um desconforto igual ao do começo de cólicas menstruais. Dormi. A partir daí acordei de hora em hora sentindo as tais dores. Sonhei que estava em trabalho de parto, e ao acordar não sabia mais se era tudo sonho ou se estava realmente começando a entrar em trabalho de parto.
Às 4 da manhã uma contração mais forte me fez ter certeza que tudo estava começando. A próxima veio somente às 5 da manhã e I., percebendo minha movimentação toda durante a noite, também já sabia o que estava acontecendo. Começamos a marcar o tempo para saber a diferença entre as contrações e quando ir ao hospital. Às 6 da manhã elas já aconteciam com menos de 10 minutos de intervalo mas ainda não eram regulares.
Tive que me sentar na cama para aguentar a dor e vomitei várias vezes.
Foi então que I. me lembrou de respirar, o que fez toda a diferença. A partir daí percebi que não era assim tão ruim. Ou melhor, era horrível, mas eu conseguia suportar. Ele saiu para ir ao mercado (eu havia pedido para comprar muito suco de frutas já que eu sabia que não conseguiria comer) e eu fui tomar banho.
Por volta das 11 da manhã os intervalos já eram menores do que 8 minutos e as dores bem mais intensas. Quis ir para o hospital e essa foi a hora mais difícil: a de me trocar e caminhar até o carro.
Fui admitida no hospital pouco antes do meio-dia. Levada para uma sala de avaliação, fui colocada num monitor para medir os batimentos cardíacos do bebê e conheci a parteira que me acompanharia (quase sempre auxiliada por uma outra parteira “chefe” ou coisa do tipo, talvez por ela ser só uma estudante ou recém-formada, não sei). Foi essa parteira mais jovem que ficou comigo durante todo o tempo, um doce de menina (parecia ter a metade da minha idade).
A outra parteira então me examinou para ver se já havia dilatação. Nada. Ou seja, ainda não estava em trabalho de parto. Ela sugeriu estourar minha bolsa para apressar as coisas, o que eu aceitei, claro.
Se os batimentos cardíacos do meu babóg estivessem normais eu teria sido mandada de volta para casa até que o trabalho de parto se iniciasse, mas como eles estavam muito baixos durante as contrações eles resolveram me manter por lá.
Às 13h15 fui examinada novamente e já estava com 3 centímetros de dilatação. Seria transferida então para o quarto onde aconteceria meu parto. Nesse momento fui perguntada qual seria minha opção para o alívio da dor. Não tive dúvidas ao pedir pela peridural. Estava definitivamente conseguindo lidar com a dor, sem gritos, sem pânico, mas sabia que não teria forças para aguentar até o final. Além disso, até a presença de I. ao me lado estava me irritando naquele momento. Não era assim que eu queria que meu filho viesse ao mundo.
Um médico então veio me perguntar se eu sabia dos possíveis efeitos colaterais e me preparar para a aplicação. Mesmo com as contrações acontecendo bem próximas umas das outras, tive que sentar na cama e tentar não me mexer. Não senti absolutamente nada, ou pelo menos nada comparado às dores que já estava sentindo.
Em 20 minutos toda a dor foi embora. Me senti humana novamente e pela primeira vez tive a sensação de que tudo ia ficar bem. Voltei a conversar com I., e com a coitada da parteira que até aquele momento só tinha recebido minha completa indiferença (acho até que fui grosseira com ela), apesar de todas as tentativas de se mostrar simpática. Cheguei a até a cochilar. Senti fome.
Às 15h15 (duas horas depois do último exame) a parteira voltou para verificar minha dilatação e saber se estávamos progredindo. Para minha supresa já estava com 7 centímetros. E foi aí que ela me disse que em menos de 2 horas eu já deveria estar com meu filho no colo.
Como os batimentos cardíacos dele ainda estavam muito baixos, um aparelhinho foi colocado diretamente na cabeça dele para que o monitoramento fosse mais preciso.
Depois disso comecei a sentir ao invés das dores, uma forte pressão e me ensinaram o que fazer para empurrar o bebê quando a hora chegasse. Senti medo.
Às 16h15 fui examinada novamente e estava com 10 centímetros de dilatação. Estava na hora de empurrar.
Como não sentia as contrações, quem me dizia o que fazer e quando fazer era a parteira. Em dado momento ela me perguntou se eu gostaria de sentir a cabeça dele e eu disse que não! O restou aconteceu muito rápido (menos de meia hora no total) e eu só me lembro de chegar a um ponto em que achei que não teria mais forças.
Precisei de um episiotomia e quando eu achava que ainda estava longe do final, percebi que E. já estava na cama, roxinho e chorando. Ele foi então colocado no meu colo e dali só saiu para ser limpo, o que durou poucos minutos.
De volta ao meu colo nos deixaram sozinhos por um tempo, ele foi amamentado e eu ganhei chá com torradas.
O melhor chá com torradas de todos os tempos.
N.









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