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Quem conta

33 anos, paulistana, paulista e são-paulina, casada com um irlandês. Louca por bolo, pastel, literatura, cinema, corujas e girassóis. Ex-professora de inglês e mãe in the making.

Que Seja Doce

“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.”

Caio F.

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Archive for Parto

A minha boa hora

By Nivea Sorensen · Comments (14)
Friday, April 22nd, 2011

National Maternity Hospital Dublin

Eu sempre espero o pior de tudo, o que pode ser um defeito ou uma qualidade dependendo do ponto de vista.

Talvez por isso hoje eu posso dizer que meu parto foi infinitamente melhor do que eu imaginava que seria. Na verdade, só poderia ser melhor mesmo, já que na minha cabeça E. atrasaria mais do que duas semanas, eu precisaria de uma indução, passaria dias no hospital esperando o trabalho de parto começar, passaria por horas e mais horas de dores incomensuráveis, não teria forças para ir até o final e terminaria com uma cesárea não planejada seguida por dias de cama em recuperação.

Por mais de uma vez chorei de medo desse cenário. Chorei de medo de não suportar a pressão e a dor. Chorei de medo de que as coisas dessem errado.

Mas ao contrário, quase posso dizer que tive um parto rápido e indolor, pelo menos na medida do possível (porque nem foi tão rápido assim e nem indolor).

Fui para cama na terça-feira irritada com a espera. Cheguei a comentar com I. que tinha certeza absoluta que estava longe da hora de conhecer meu babóg. Ainda com ele abraçado a mim, senti uma primeira contração e um desconforto igual ao do começo de cólicas menstruais. Dormi. A partir daí acordei de hora em hora sentindo as tais dores. Sonhei que estava em trabalho de parto, e ao acordar não sabia mais se era tudo sonho ou se estava realmente começando a entrar em trabalho de parto.

Às 4 da manhã uma contração mais forte me fez ter certeza que tudo estava começando. A próxima veio somente às 5 da manhã e I., percebendo minha movimentação toda durante a noite, também já sabia o que estava acontecendo. Começamos a marcar o tempo para saber a diferença entre as contrações e quando ir ao hospital. Às 6 da manhã elas já aconteciam com menos de 10 minutos de intervalo mas ainda não eram regulares.

Tive que me sentar na cama para aguentar a dor e vomitei várias vezes.

Foi então que I.  me lembrou de respirar, o que fez toda a diferença. A partir daí percebi que não era assim tão ruim. Ou melhor, era horrível, mas eu conseguia suportar. Ele saiu para ir ao mercado (eu havia pedido para comprar muito suco de frutas já que eu sabia que não conseguiria comer) e eu fui tomar banho.

Por volta das 11 da manhã os intervalos já eram menores do que 8 minutos e as dores bem mais intensas. Quis ir para o hospital e essa foi a hora mais difícil: a de me trocar e caminhar até o carro.

Fui admitida no hospital pouco antes do meio-dia. Levada para uma sala de avaliação, fui colocada num monitor para medir os batimentos cardíacos do bebê e conheci a parteira que me acompanharia (quase sempre auxiliada por uma outra parteira “chefe” ou coisa do tipo, talvez por ela ser só uma estudante ou recém-formada, não sei). Foi essa parteira mais jovem que ficou comigo durante todo o tempo, um doce de menina (parecia ter a metade da minha idade).

A outra parteira então me examinou para ver se já havia dilatação. Nada. Ou seja, ainda não estava em trabalho de parto. Ela sugeriu estourar minha bolsa para apressar as coisas, o que eu aceitei, claro.

Se os batimentos cardíacos do meu babóg estivessem normais eu teria sido mandada de volta para casa até que o trabalho de parto se iniciasse, mas como eles estavam muito baixos durante as contrações eles resolveram me manter por lá.

Às 13h15 fui examinada novamente e já estava com 3 centímetros de dilatação. Seria transferida então para o quarto onde aconteceria meu parto. Nesse momento fui perguntada qual seria minha opção para o alívio da dor. Não tive dúvidas ao pedir pela peridural. Estava definitivamente conseguindo lidar com a dor, sem gritos, sem pânico, mas sabia que não teria forças para aguentar até o final. Além disso, até a presença de I. ao me lado estava me irritando naquele momento. Não era assim que eu queria que meu filho viesse ao mundo.

Um médico então veio me perguntar se eu sabia dos possíveis efeitos colaterais e me preparar para a aplicação. Mesmo com as contrações acontecendo bem próximas umas das outras, tive que sentar na cama e tentar não me mexer. Não senti absolutamente nada, ou pelo menos nada comparado às dores que já estava sentindo.

Em 20 minutos toda a dor foi embora. Me senti humana novamente e pela primeira vez tive a sensação de que tudo ia ficar bem. Voltei a conversar com I., e com a coitada da parteira que até aquele momento só tinha recebido minha completa indiferença (acho até que fui grosseira com ela), apesar de todas as tentativas de se mostrar simpática. Cheguei a até a cochilar. Senti fome.

Às 15h15 (duas horas depois do último exame) a parteira voltou para verificar minha dilatação e saber se estávamos progredindo. Para minha supresa já estava com 7 centímetros. E foi aí que ela me disse que em menos de 2 horas eu já deveria estar com meu filho no colo.

Como os batimentos cardíacos dele ainda estavam muito baixos, um aparelhinho foi colocado diretamente na cabeça dele para que o monitoramento fosse mais preciso.

Depois disso comecei a sentir ao invés das dores, uma forte pressão e me ensinaram o que fazer para empurrar o bebê quando a hora chegasse. Senti medo.

Às 16h15 fui examinada novamente e estava com 10 centímetros de dilatação. Estava na hora de empurrar.

Como não sentia as contrações, quem me dizia o que fazer e quando fazer era a parteira. Em dado momento ela me perguntou se eu gostaria de sentir a cabeça dele e eu disse que não! O restou aconteceu muito rápido (menos de meia hora no total) e eu só me lembro de chegar a um ponto em que achei que não teria mais forças.

Precisei de um episiotomia e quando eu achava que ainda estava longe do final, percebi que E. já estava na cama, roxinho e chorando. Ele foi então colocado no meu colo e dali só saiu para ser limpo, o que durou poucos minutos.

De volta ao meu colo nos deixaram sozinhos por um tempo, ele foi amamentado e eu ganhei chá com torradas.

O melhor chá com torradas de todos os tempos.

N.

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Categories : Parto, Pretensões e Desabafos

Blogagem Coletiva: O Parto e a Irlanda

By Nivea Sorensen · Comments (11)
Saturday, March 19th, 2011

A blogagem coletiva desse mês do Mães Internacionais é sobre o parto em diferentes partes do mundo.

Apesar de não poder contribuir ainda com a minha experiência pessoal eu não podia deixar de escrever a respeito, uma vez que obviamente tenho pensado tanto sobre isso nessas últimas semanas de gravidez.

A primeira vez que eu falei sobre parto aqui no blog foi aqui. De lá pra cá praticamente 6 meses se passaram e acho que posso dizer que estou mais tranquila com a idéia de um parto normal.

Como eu expliquei naquele post, aqui na Irlanda não existe a prática de cesárea, pelo menos não como no Brasil, a não ser no caso de uma gravidez de risco, ou de complicações para a mãe ou para o bebê. Então eu não tenho mesmo muita escolha. No entanto, hoje acho que se pudesse decidir optaria mesmo por um parto normal.

Isso porque atualmente o que mais me preocupa é o depois. Eu sei que muitas mães se recuperam muito rápido de uma cesárea mas eu não gostaria de arriscar ter que passar dias na cama, ou de sofrer com dores na cicatriz, ou qualquer outra complicação. Já passei por uma outra cirurgia antes e minha recuperação não foi fácil. Pelo meu histórico de depressão, não posso me dar ao luxo de não estar bem. Gostaria de poder caminhar, amamentar e dar atenção total ao meu babóg nos primeiros dias de vida. Tenho absoluta certeza que o meu bem-estar emocional vai depender em parte do meu bem estar-físico.

Além disso, toda a dor, e o que mais tiver que vir antes, vai muito provavelmente ser esquecido assim que tiver o pequeno nos braços.

O que  não mudou até agora é minha opção de como lidar com a dor. Ou melhor, de como não lidar com ela.

Antes de mais nada vale a pena mencionar as 3 opções mais comuns para alívio da dor, disponíveis a quem tem um filho aqui na Irlanda de parto normal:

  • TENS – não sei se existe no Brasil, mas é um aparelhinho (igual ao da foto abaixo) que através de eletrodos bloqueia a sensação de dor. Pode ser comprado por cerca de €90 ou alugado por menos da metade do preço, para ser utilizado em casa. Dizem funcionar bem no primeiro estágio do trabalho de parto enquanto as dores não são tão fortes. Não existe nenhuma contra-indicação, mas também não tem eficiência comprovada. Eu ainda estou pensando na possibilidade de alugar um para usar antes da hora de ir para o hospital, nas primeiras contrações.

  • Entonox – mais conhecido como o gás do riso, que pode ser usado durante todo o trabalho de parto (no hospital, claro). Pode causar tontura, desorientação, náusea e vômito. Parece ser a opção preferida das mães de segunda viagem, cujo trabalho de parto é mais rápido, ou como primeira opção, antes de se tentar a anestesia. As poucas pessoas que eu conheço e usaram, adoraram.
  • Epidural – anestesia local aplicada na base da espinha, que acho que todo mundo já ouviu falar. A vantagem? É o método mais eficaz contra a dor.  Desvantagens: pode fazer com que o trabalho de parto seja mais longo, não permite movimentação (ou seja a mãe precisa ficar na cama), a área da aplicação pode ficar dolorida por alguns dias, e o uso de fórceps pode ser necessário.

Até os anos 70 o National Maternity Hospital (a maior maternidade da Irlanda) não aprovava o uso indiscriminado da anestesia e mais de 90% dos partos eram realizados sem esse auxílio. Por essa razão muitas pacientes começaram a procurar por outros hospitais. A partir dos anos 90 essa política foi revista e hoje mais de 70% dos partos são realizados com a epidural.

Apesar desse número alto, durante meu curso pré-natal, eu fui a única gestante (num grupo com mais de 20) a levantar a mão quando perguntada se pretendia optar pela anestesia, o que me deixou com a impressão de que existe certo preconceito por parte das irlandesas. Ou uma certa ignorância quanto ao nível da dor causada pelas contrações.

Já eu, despretenciosamente, não tenho problema nenhum em admitir que não me vejo suportando tamanha dor. Como eu disse, estou pensando em usar o TENS em casa, talvez o gás quando chegar ao hospital, mas tenho quase certeza que vou acabar mesmo com a agulha nas costas.

Claro, eu prefiro que a coisa toda aconteça com menos intervenções possíveis, mas com fórceps ou sem fórceps (ou ventosa), com pontos ou não, no final das contas, só o que eu quero é um babóg saudável e perfeito.

E nesse caso acho que somos todas iguais, sejam os partos normais ou cirúrgicos, curtos ou longos, em casa, no hospital, com médico ou parteira, no Brasil, na Irlanda, no Japão, ou no Irã.

N.

Esse post faz parte de um projeto de blogagem coletiva. Para saber mais sobre a expêriencia de outras mães em diferentes países clique aqui.

 

 

Comments (11)
Categories : Blogagem Coletiva, Gravidez, Mães Internacionais, Parto, Vida na Irlanda

Com que roupa eu vou?

By Nivea Sorensen · Comments (8)
Saturday, February 26th, 2011

Eu estou longe de ser o tipo de pessoa que se preocupa excessivamente com o que vai usar.

Não dou muita importância para marcas mas gosto de coisa de qualidade. Se for para parecer um outdoor ambulante exibindo logos e etiquetas, não uso. Mas também tenho horror à Penneys*, salvo raríssimas exceções.

Gosto de conforto e meu armário é basicamente composto de jeans e blusinhas. Aliás, tenho sorte que no trabalho não preciso me vestir formalmente.

Mas obviamente eu não escreveria um post sobre isso. O assunto aqui é o que vestir numa situação dessas que não acontecem todos os dias, e pela qual eu nunca passei: o parto.

Há meses a bendita mala do hospital vinha me tirando o sono. A minha, não a do babóg. Ou melhor, a minha mais do que a do babóg. Porque por mim faria uma mala gigante com tudo o que eu por ventura possa precisar, e com mil opções para o antes, o durante, e o depois.

Quer dizer, o antes pouco importa porque vou terminar indo para o hospital com o que tiver vestindo em casa mesmo. E aí bateu a dúvida maior: o que usar no durante?

Se fosse uma cesárea não teria esse problema, porque acho eu que uma cesárea deve exigir toda aquela parafernália cirúrgica. Mas para o parto normal eu mesma tenho que providenciar o que usar.

Fui ao google então: “parto normal, o que vestir”. Em português a pesquisa não resultou em nada, claro, afinal no Brasil parto normal é cesárea. Em inglês dei mais sorte e encontrei milhares de fóruns com conselhos de outras mães. Basicamente todas diziam a mesma coisa: eu precisaria de uma camisola, confortável o bastante para acomodar a barriga, e aberta na frente para permitir contato e amamentar o bebê nos primeiros minutos após o nascimento. Consenso geral também que melhor que a peça em questão seja bem velha, ou não custe muito, uma vez que vai ficar completamente inutilizável depois.

Considerei por alguns minutos comprar algo bem barato na Penneys mesmo. Uma daquelas camisetas grandonas de dormir. O problema é que acho todas horrorosas, principalmente aquelas com motivos infantis ou cores esdrúxulas. Pior ainda se for Disney. Eu que já não estou exatamente empolgada com o fato de ter um parto normal, gostaria de evitar ter um pateta estampado na barriga. Verdade, não quero estar feia na primeira vez que meu filho me ver.

Mentira, estou usando meu filho como desculpa. Eu não quero estar feia e ponto. Já não existe lá muita dignidade num parto normal, você há de concordar, então quanto mais da minha eu puder salvar, melhor.

Uma vez decidido isso resolvi que compraria uma camisola de gestante. Mas olhando os sites de algumas marcas, fiquei chocada com os preços. Afinal de contas, eu também não quero gastar uma fortuna numa camisola que vai ser jogada fora depois de usada uma única vez.

O problema foi finalmente resolvido alguns dias atrás na Mothercare: acabei encontrando em promoção exatamente o que eu procurava, uma camisola descente que não me custou os olhos da cara. Comprei pijamas para o depois também, desses que permitem amamentar.

E foi aí que mandei o orçamento ralo abaixo e comprei TUDO novo: toalhas grandes e macias, roupão, desnecessaires novas, mini produtos de higiene pessoal (desses que custam muito mais caro do que as embalagens de tamanho normal), além de todas as necessidades (calcinhas descartáveis, absorventes, protetores de seio). Enfim, tranqueira suficiente para uma estadia de semanas no hospital, cobrindo qualquer eventualidade.

Quando I. olhou a quantidade de sacolas espalhadas pela sala e me olhou com cara de “onde foi parar toda aquela conversa sobre querer economizar ao máximo?” eu tive que apelar para o meu filho mais uma vez (ou melhor, nessas horas ele é nosso filho): fiz cara de manha e disse que já que ia dar um filho para ele o mínimo que podia fazer é me oferecer um mínino de conforto, não é?

E ai dele se discordar.

N.

PS.: a Penneys, se você não mora na Irlanda, é uma loja de preços acessíveis e qualidade mais do que duvidosa.

Comments (8)
Categories : Chantagem emocional, Gravidez, O que usar?, Parto

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