Gravidez Parto Pretensões e Desabafos

O parto da Lia

Para ler o que aconteceu nos dias que antecederam o parto clique aqui.

Quinta-feira, 24 /11/2016
38 semanas e 3 dias de gestação

Acordei por volta das 2 da manhã com cólicas. Por uma lado achei que poderia ser um início de trabalho de parto (porque tanto com o Erik quanto com a Elena, também senti cólicas logo antes das contrações), mas por outro tentei não me animar porque durante essa gravidez as cólicas foram constantes.

As dores não eram fortes mas por alguma razão não consegui mais voltar a dormir.

Ás 4h00 da manhã senti a primeira contração e soube de cara que não era um alarme falso. Continuei deitada esperando pelas próximas, já preocupada com o que fazer com as crianças para ir ao hospital. Naquela noite Olivia (nossa au pair) não tinha dormido em casa, e nosso plano-b incluía uma amiga querida que mora aqui perto de casa. Como ela também tem filhos pequenos eu queria muito evitar ligar para ela no meio da noite, além de que nesse caso eu teria que acordar as crianças, trocá-las, preparar uma pequena mala com itens pessoais deles, coisas que eu preferia evitar, se possível.

Um pouco antes das 5 minhas contrações ainda eram fracas e irregulares. Percebi que o Ian estava meio acordado e avisei o que estava acontecendo. Resolvemos então ligar para a Olivia para que ela voltasse para casa. Por sorte ela atendeu o telefone e Ian mandou um táxi buscá-la no centro de Dublin.

Saber que a Olívia estava a caminho nos deixou bem tranquilos, já que não alteraria muito a rotina do Erik e da Elena, então começamos a arrumar as coisas para ir ao hospital. Ian tomou banho enquanto eu colocava na mala os últimos itens. Eu sabia que ainda era cedo para ir, mas moro longe do hospital e não queria correr o risco de parir em casa ou no caminho.

Saimos de casa por volta das 6 da manhã e em meia-hora já estávamos na maternidade. No carro eu disse novamente para o Ian que não queria tomar anestesia e pedi que ele não cedesse quando eu pedisse por uma (já sabendo que na hora que a coisa pegasse, leia-se no período de transição quando a mulher atinge a dilatação quase total, eu ia querer anestesia, cesária, manter o bebê para sempre na barriga, qualquer coisa)

Quando chegamos no hospital minhas contrações continuavam na mesma, bem suportáveis e eu estava bastante tranquila. Talvez por essa razão esperei um bom tempo na recepção antes de fazerem minha admissão e ir para a sala de parto.

Então fui internada e colocada na máquina que mede os batimentos cardíacos do bebê e a intensidade das contrações. Durante um exame de toque a parteira verificou que não havia dilatação e o colo do útero estava alto e fechado. Ou seja, eu ainda não estava em trabalho de parto ativo. Eram 7h00 da manha.

Esperamos mais uma hora para realizar outro exame de toque. Mais uma vez o resultado foi o mesmo. Nada de dilatação, contrações irregulares e nenhum progresso na última hora. Confesso que nesse momento me desanimei. Sempre achei que teria um parto rápido e não estava a fim de ficar numa cama de hospital esperando.

Nesse caso o procedimento padrão é deixar a sala de parto e ser transferida para uma outra ala da maternidade (um quarto coletivo) até o início do trabalho de parto ativo (dilatação e contrações regulares). A parteira (que estava acompanhada de uma estudante) chegou a dizer que o parto poderia demorar muitas horas ainda, mas que talvez acontecesse antes do final do dia. Ela sugeriu que eu fosse caminhar, tomar café-da-manhã e permanecer ativa. Eu ainda avisei que meus trabalhos de parto anteriores tinham começado assim, devagar, mas que engrenaram rapidamente e senti que ela não acreditou que isso aconteceria dessa vez.

Acontece que não havia vagas disponíveis na ala de pré-parto da maternidade e tive que permanecer na sala de parto (o que para mim foi uma ótima notícia).

Nesse momento conversei com Kate, a parteira, sobre o tipo de parto que eu queria: ativo (em que eu pudesse me movimentar e não ficar deitada na cama, muito menos durante o expulsivo), natural (sem nenhuma intervenção desnecessária como ruptura da bolsa amniótica, episiotomia e etc.; e sem uso de anestesia). Concordamos então que seria melhor eu me levantar e fazer alguns exercícios com a bola de pilates para apressar as coisas.

Eram 8h20 quando as parteiras afastaram a cama do centro do quarto, trouxeram uma banqueta de parto, uma bola de pilates e um colchonete e eu iniciei alguns exercícios no chão, com auxílio da bola. Foi nesse momento que minhas contrações começaram a ganhar intensidade, com intervalos praticamente mínimos entre elas. Ao contrário das minhas experiências anteriores, senti muitas dores nas costas e achei que as contrações estavam extremamente fortes para um início de trabalho de parto.

Agachada no chão com o apoio da bola as contrações se tornaram insuportáveis. Cheguei a perguntar se aquela era uma boa posição para suportar tanta dor. Kate me disse que as contrações iriam doer muito mais daquela maneira mas que apressaria as coisas.

Alguns minutos depois não aguentava mais e me sugeriram entrar no chuveiro. A princípio eu não quis. Não tinha nem toalha, nem chinelos comigo, já que a mala com as minhas coisas estava ainda no carro. Mesmo assim acabei cedendo com a promessa de que a água quente aliviaria a dor, principalmente nas minhas costas.

Eram 8h40 quando entrei no chuveiro e de fato nos primeiros minutos senti certo alívio. Kate sugeriu que eu continuasse de pé e que rebolasse ou dançasse durante as contrações o que me pareceu impossível. A essa altura tinha uma contração seguida por outra, e a cada uma delas eu tinha a certeza que não aguentaria por muito tempo. A água já não fazia nenhum efeito, eu não aguentava mais ficar de pé.

Me trouxeram o gás mas eu não conseguir inalar e quando conseguia não parecia me trazer alívio nenhum. As dores eram muito mais intensas, muito piores do que no trabalho de parto da Elena, por exemplo, do qual eu ainda me lembro muito bem.

Dessa vez eu senti muito medo, me senti totalmente sozinha, provavelmente por não saber como as coisas estavam evoluindo ou em que estágio eu estava. Aliás ninguém ali sabia ao certo. Foi tudo muito rápido, confuso e intenso.

Quis uma anestesia. Pedi que Ian conversasse com as parteiras (que tinham nos deixado sozinhos no banheiro e estavam de volta no quarto) e avisasse que eu PRECISAVA de um anestesista. Ele tentou argumentar dizendo que eu ia aguentar sem a anestesia, que no fundo eu não queria, que eu me arrependeria e blá blá blá. Chorei, gritei, tive vontade de esganá-lo. A sensação era a de que eu iria morrer daquilo. Me arrependi horrores de não estar deitada na cama, com metade do corpo anestesiado.

Então senti vontade de fazer força. Ou melhor, achava que precisava usar o banheiro, ou que precisava pelo menos sentar, me encolher, qualquer coisa que aliviasse aquela dor. Saí do chuveiro e sentei direto no vazo sanitário. Kate voltou do quarto e me lembro que ela desligou o chuveiro e trouxe toalhas para me secar. Ela sentou na minha frente no chão, me secou dos pés à cabeça e vestiu minha camisola enquanto eu parecia estar em transe.

Nessa hora eu perguntei se poderia tomar uma anestesia. Ela respondeu que eu “poderia qualquer coisa que eu quisesse” mas que ela ia me examinar primeiro e que eu precisava voltar para o quarto. Foi então que senti uma pressão enorme seguida do barulho de algo que caía na água. Me assustei. Era minha bolsa que tinha arrebentado. Pelas anotações do meu prontuário isso aconteceu às 9h03.

Kate tentou me apressar para o quarto mas eu disse que não conseguia andar. Assim que me levantei senti mais uma vez uma pressão ainda maior. Senti a cabeça do bebê saindo mas não conseguia avisar ninguém. Só percebi que todos correram para o quarto, que as parteiras se ajoelharam no chão e me pediram para fazer o mesmo no colchonete que havia sido estendido para eu me exercitar.

Me ajoelhei e apoiei as mãos e o corpo na bola, ainda tentando usar o gás, sem saber se gritava ou se respirava. Kate disse que o bebê estava nascendo e não dava tempo de mais nada. Então senti uma vontade incontrolável de fazer força e de repente o bebê escorreu pelas minhas pernas, de uma vez só. Ao olhar para baixo ela estava ali, no chão, apoiada nas mãos da parteira.

Peguei no colo, abracei e anunciei que era uma menina (dessa vez eu fui a primeira a ver).  Eram 9 horas e 8 minutos.

Naqueles primeiros segundos, toda a dor passou e eu senti uma euforia enorme. Aquela sensação incrível de empoderamento, de protagonismo, de força, que eu já havia experimentado antes (e que eu descrevi aqui). Era como se todo meu cansaço tivesse sido substituído por energia, por adrenalina e meu corpo tomado por paixão, por amor por aquele bebê no meu colo, colado ao meu peito, ainda fisicamente ligado à mim.

E assim, ainda com o cordão umbilical pulsando eu me levantei do chão, com a Lia nos braços e fui para a cama. Cheguei a olhar para trás e notar que todo mundo ainda parecia em choque, principalmente o Ian. Kate estava suja de sangue já que não houve tempo de vestir o avental que as parteiras costumam colocar por cima do uniforme (também não houve tempo de chamar uma segunda parteira para acompanhar o expulsivo, como manda o protocolo) e havia um rastro de sangue pelo quarto todo.

E foi no meio daquela bagunça e daquela sujeira, olhando o dia amanhecer pela janela, que eu vivi pela última vez a experiência mais bonita dessa vida.

A mais bonita.

Lia, nossa maior supresa, você já é também nosso grande amor. Bem-vinda, pequena.

N.

22 Comments

37 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na fralda e de uma pintinha de olhos grandes e curiosos; doceira; blogueira e dona-da-casa.

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22 Comments

  • TAMIRIS MARTINS

    Uau, que relato lindo, intenso <3

    Meus parabéns e muita saúde e felicidades pra essa família linda e incrível!

  • evelyn

    Nivea. Você me fez chorar com essa narrativa linda de vocês. Muito obrigada por tudo. Por ter compartilhado mais essa experiência incrível e animadora. Obrigada também por ter sido uma das minhas maiores inspirações. Obrigada obrigada obrigada. Gratidão eterna por tudo de bom que você tem feito (e nem sabe que está fazendo).
    Um ótimo ano novo pra essa família linda e felicidades

  • Mariana Fortes

    Nivea, também estou longe do nosso país de origem e é por isso que sempre te acompanho: parece que ex-patriados se reconhecem!
    Diferente de você não tenho filhos, não acredito que vou tê-los, mas o amor que sinto pela mulher que faz seu parto é algo que não cabe em mim.
    Parabéns pela força, por ser dona do seu corpo e por compartilhar com a gente os detalhes mais bonitos, da sua vida. Os mais bonitos.
    Um beijo, cuide-se nesse puerpério e cheire bastante sua bebezinha <3

  • Natália

    Três letras: UAU !
    Parabéns, Nivea! E seja bem vinda, pequena Lia!
    Bjs

  • Zulmira

    Ao chegar ao fim desse relato percebi que aqui no Brasil o calor está tão intenso, mas tão intenso, que comecei a suar pelos olhos… :’)

  • Priscila

    UAU, que lindo! sempre me emociono com esses relatos!

  • Glenda

    Parabéns Nivea! Você é muito forte! Amei o relato, obrigada por compartilhar este momento lindo com a gente. Desejo tudo de muito bom para a sua família. Um forte abraço.

  • Luciana

    Que lindo relato Nivia! Me emocionou. Você é uma mulher muito forte e corajosa. Inspira as pessoas. Só desejo amor para você e sua família. Beijos, Luciana Ladevig

  • Larissa

    Parabéns! Me trouxe lágrimas de amor!

  • Mari Batistello

    Que lindeza! Que força! Amei o relato.

    Uma linda lua de leite pra vocês!

  • Priscila

    Que lindo……. ??

  • Silvana Nunes

    MUITO emocionante! Vc é demais! Parabéns Ni! Bjos!

  • PAULA

    apaixonada pela sua escrita. lindo!

  • Izabel

    Que lindo! Que emocionante!! Parabéns! Muito amor para sua família! Beijos

  • Thaís

    Nivea, que relato lindo, que parto lindo. Me emocionei. Parabéns, muita saúde à vcs e uma vida abençoada à Lia.

  • Tatiana

    Fiquei arrepiada lendo esse relato. Parabéns Nivea, por uma família tão linda!! E concordo com você que a experiência de parir é a mais bonita de todas. Não há nada, NADA que se compare a essa sensação. Sou mãe de uma pequena de 4 anos e meio que é a minha luz. Delícia reviver esse momento tão lindo do parto através do seu relato.

  • Juliana

    Parabéns!
    Amei seu texto, e me arrepiei com sua experiência.

    Você foi incrível!

  • Marie

    Ai Nívea, senti tudo, fiquei hipnotizada!
    A Lia estreou e em grande!
    No NE de onde venho se diz:
    – bangunçou o coreto!
    Vai ver trará consigo um enredo de emoções fortes!
    Eu creio que quando fica insuportável é chegada a hora.
    Marquei cesariana aos 4 meses de gestação. Esperei algum sinal e interrompemos à espera com 41 semanas e 2 dias. Não me imaginava nesse seu protagonismo, apenas quebrando os vidros e puxando os cabelos dos que estivessem por perto. Para mim é incrível o poder da mulher suportar a dor mais linda da vida. Eu fui covarde.
    Parabéns por confiar em si e em seu potencial, Deus é mesmo perfeito no que idealiza.
    Bem vinda Lia-linda e do rostinho mais fofo!
    Que linda vcs duas!

  • Luciene Asta

    UAU !!!! Que partaço !!!! Lia chegou chegando ! hahahahaha
    Muita saúde, vida, amor, tudo de bom dessa vida pra voces.

  • maria soares

    Lindo relato. Voce nasceu para ser mae! parabéns. Maria

  • Laudenire

    que lindo…
    fico muito emocionada com essas histórias…

    parabéns!!!

  • Liza

    Que lindo… Quanta emocao!!!

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