depressão

Precisamos falar sobre isso

Hå algumas semanas atrás postei um vídeo no Stories do Instagram –  como tenho feito quase que diariamente mostrando recortes do nosso cotidiano – em que, honestamente e sem filtros, eu comentava que não tinha levado Erik na escola porque não estava me sentindo bem naquele dia.

Horas depois recebi um comentário de uma pessoa que me mandava “deixar de preguiça e levar o menino para a escola”.

Com paciëncia e educação respondi ao comentário explicando que eu não tinha “preguiça”, mas que tinha uma doença muito grave chamada depressão que muitas vezes me debilita severamente.

Na sequência a pessoa se achou no direito de me “ajudar”, segundo ela própria, dizendo todas aquelas coisas que quem sofre de algum transtorno mental está cansado de ouvir: “deixa disso”; “bola para frente”; “olha a vida maravilhosa que você tem”, “depressão só mata quem se deixa matar”, além de outras baboseiras sobre como criar os meus filhos (que segundo ela mereciam uma mãe mais “positiva”, que os ensinasse a serem “vencedores”!).

Ou seja, um desfile de ignorância e falta de empatia que eu preferi ignorar e bloquear para não me deixar contaminar. Comentei com as outras pessoas sobre o assunto no próprio Instagram e o assunto ficou para trás.

Até que outro dia aí, ao me deparar com a noticia da morte por suicido do líder da banda Linkin ParkChester Bennington, esse tipo de comentário veio de novo à tona, dessa vez numa escala absurda.

As duas coisas mexeram muito comigo, eu não posso negar.

A primeira, a morte em si. Uma pessoa que travava, ainda que silenciosamente, uma guerra contra uma doença muito cruel, não resistiu e tombou. Quando isso acontece, é para mim (e para todas as outras pessoas que dividem também essa guerra) como se o chão tremesse. Eu também vivi o horror que esse homem vivia. Eu, felizmente, tive apoio e suporte para pedir e receber ajuda. Por isso, e só por isso, eu escrevo esse texto nesse momento.

Por estar cercada de pessoas que entenderam que eu estava doente e precisava de tratamento é que meus filhos hoje convivem com a mãe. Essas pessoas não acharam que isso era frescura ou que eu precisava de “Deus” no coração.

E por isso, falar sobre esse assunto é tão importante para mim. Pela mesma razão, os comentários nas redes sociais me causam um grande incômodo, quase que um aperto no coração.

Eu queria muito dizer para essas pessoas que o suicido não é um sinal de fraqueza, nem tão pouco de egoísmo. O suicido é um final muito triste para um sofrimento que parece não ter fim. É o pedido mais triste por ajuda, aquele que chega tarde demais, que livra a vítima do horror absoluto mas causa muita dor a todos ao redor. Ninguém quer passar por isso.

Eu queria dizer para as pessoas que se perguntam “por que um homem bem sucedido, com uma vida perfeita, família e filhos faz uma coisa dessas?” que essa pergunta é auto-explicativa. Só um sofrimento imensurável, causado pela doença, leva uma pessoa a tomar essa atitude. Eu aposto que você, principalmente se tem filhos (e sabe que NADA é mais importante do que protegê-los de qualquer trauma) não consegue imaginar tamanha dor, tamanha angustia. Que tipo de dor é essa cuja única saída destrói também a vida das pessoas que você mais ama? Eu te conto. É a sensação de estar se afogando enquanto TODOS a sua volta nadam e não te percebem. Quanto mais você tenta nadar, mas você afunda e menos consegue gritar por socorro. Você tem certeza que vai morrer mas a morte, que há essa altura seria um alívio, não vem. A luz some por completo. O corpo para de reagir. Você não sente mais nada, além de medo. A doença destrói completamente sua capacidade de imaginar um futuro. Na sua cabeça não existe cura, não existe melhora, não existe saída, não existe nada além do que você sente agora e o que você sente é pânico e solidão.

Mas as pessoas ainda estão ali, ainda seguem vida normal, só não te enxergam. Elas dizem coisas como: “se esforce”, “pense positivo”, “saia dessa”.

Percebe o problema? Por uma lado ninguém sai de uma crise de depressão profunda sozinho. Por outro, pedir ajuda é uma tarefa muito difícil e ingrata. Não existe empatia. Não existe conhecimento sobre a doença. Ou você acha que alguém com câncer ouve esse tipo de comentário?

Depressão dói. Preconceito também.

Agora fatal mesmo é a combinação de ambos.

N.

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11 Comments

38 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

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11 Comments

  • Thais

    Bom dia Nivea,

    A morte do Chester também me abalou muito, assim como a do Chris Cornell. Esse tipo de coisa mexe muito comigo porque sempre me pergunto se eu serei a próxima.
    A depressão é uma das doenças mais cruéis, pq ninguém morre de depressão (ao contrário das outras) de forma natural. Ou você aprende a conviver ou o suicídio acontece. Eu tenho isso e estou vivendo um dia após o outro…

    A gente sabe que o remédio não segura todas as crises e nesse momento é melhor parar mesmo. Depressão não é preguiça e nem falta do que fazer.

    Mas quero que você saiba que tem muita gente que te acompanha e quer te ver bem (eu sou uma delas e adoro seus Stories). Bloqueia esse povo a toa que não tem noção nenhuma das merdas que fala… você não precisa ler essas coisas.

    Bjs e fique bem

  • Helena

    Muito importante e doloroso seu relato. Importante ouvir essa voz, reter essa informação, para compreender esta doença tão difícil. Que bom que vc está aqui, Nivea, pra poder falar disso! Lamento ter lido esses comentários, fruto da mais profunda ignorância. Mando um abraço muito carinhoso.

  • Ana Flores

    Querida, você sabe que muitas pessoas torcem por você nos dias bons e mais ainda nos dias mais difíceis! Conte conosco!

  • Maíra Moreira

    Nivea, como falaram aqui em cima, tanto a morte do Chris Cornell quanto a do Chester me abalaram demais.. e todas as vzs q eu li / soube de relatos das suas crises, tbm me abalaram. Talvez pq, mesmo sem conhecer vcs 3, sempre tive um carinho enorme por todos.
    Fico extremamente feliz em saber que a sua volta, fisicamente, vc encontra apoio para passar por essas ondas fortes e seguir lutando contra esse mar. Mas saiba que virtualmente, vc conta com a mesma rede de apoio… vcs não sao invisíveis! A gente segue todos juntos… ❤️

  • Jamile

    A morte dele não podia ter vindo em pior hora para mim, por dois motivos, eu gosto das músicas deles, sinto empatia e por que estou numa fase ruim da depressão, sinto empatia, rs. Eu nem gosto de comentar sobre isso, mas você me ajuda tanto que eu compartilho. Eu não me matei por que sou espírita, pois se não fosse, eu já teria partido. Gratidão por descrever essa dor.

  • Eliana

    Que vocês recebam a força do alto para superar este terrível sofrimento.
    Eu passei por isso é Graças a Deus melhorei.
    Tenho recaídas mas logo procuro a fonte da minha cura e.o sol volta.a.brilhar…

  • Maria Paula

    ♥️Vc simplesmente disse tudo….
    sinto muito que ainda tanta falta de empatia e tanta ignorância ….. e sinto mais ainda ter certeza que isso não muda tão cedo…
    sigamos!!!!
    Força para nós!!!
    E beijos meus para vcs!

  • Palloma

    Olá Nivea,

    O tema do seu post é profundo e interessante. Qual é o caminho para ajudar uma pessoa com depressão? Quem está de fora, não sabe por onde ajudar. Como seria esse apoio, além, é claro, da ajuda profissional.

  • Michele

    Nivea, passei a entender melhor a depressao acompanhando seu blog. Seus relatos foram tao importantes pra entender o que se passa com duas pessoas queridas que tambem tem depressao. Nunca achei frescura ou preguica, mas tb nao sabia muito como elas se sentiam. Tenho uma admiracao muito grande por vc. Muito carinho por vc e sua familia.

  • Juliana

    Nivea,

    “Só por hoje eu não quero mais chorar
    Só por hoje eu espero conseguir
    Aceitar o que passou e o que virá
    Só por hoje vou me lembrar que sou feliz

    Hoje eu já sei que sou tudo o que preciso ser
    Não preciso me desculpar e nem te convencer
    O mundo é radical
    Não sei onde estou indo
    Só sei que não estou perdido
    Aprendi a viver um dia de cada vez

    Só por hoje eu não vou me machucar
    Só por hoje eu não quero me esquecer
    Que há algumas pouco vinte quatro horas
    Quase joguei a minha vida inteira fora

    Não não não não
    Viver é uma dadiva fatal
    No fim das contas ninguem sai vivo daqui mas…vamos com calma”

    Renato Russo

    Eu canto para mim mesma esses versos quando a coisa aperta…senti vontade de dividi-los com voce.
    Keep walking! Força!

  • Maria Julia

    Amei!!

    Muito bom esse post, estou adorando visitar e ler os posts deste blog, sempre tem posts legais e com dicas interessantes, informações e muitas coisas boas…

    Parabéns !!!

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