depressão

Melancolia e tristeza infinita

 

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Desses posts que eu nunca sei se escrevo ou não. Mas se não escrevo como sabê-lo?, já dizia um poeta. Ou melhor, se não escrevo como tirar o assunto da cabeça? Confesso que ontem demorei a dormir e ainda sonhei com a coisa que tanto trabalho me dá para esquecer. Então escrevo, mesmo que para isso me exponha demais.

Acordei ontem com a notícia de que o ator Robin Williams havia se suicidado e que convivia há anos com uma depressão profunda. Confesso que dificilmente (para não dizer que nunca) a morte de um artista, mesmo que eu muito o admire, me abale. Ao contrário, certa comoção demonstrada em redes sociais às vezes até me irrita. Mas isso não vem ao caso.

Na sequência da noticia da morte, li em algum lugar que “a gente não sabe o peso que homem nenhum carrega nos ombros, até que ele desista e coloque a carga no chão, e aí sim, você sente o chão estremecer”, e passei o dia pensando nisso.

Lamentei a morte do ator, não por ele ter me feito rir ou chorar através do seu trabalho, mas por compartilhar com ele o peso de uma carga que nem sempre é possível carregar sozinho. Dessas que ninguém nem vê, que não deixa marcas aparentes, cicatrizes, nem efeitos colaterais, nem causa perda de cabelo. Uma doença que não dá febre ou pode ser diagnosticada através de um exame de sangue. Dessas que ninguém vai te mandar flores com um cartão desejando “melhoras”.

Lamentei saber o que ele sentia, lamentei saber que dessa dor ele não morre mais.

Robin Williams era um dos meus. Parte de um grupo, que cresce assustadoramente a cada dia, de pessoas que convivem com o que já se chamou de mal do século. De gente que luta diariamente por anos a fio para continuar vivendo, que luta para continuar lutando. Que luta também contra a ignorância e preconceito de que quem não consegue entender.

Ontem ele caiu, como um soldado num campo de batalha. Perdeu uma guerra que eu também chamo de minha. E ao cair, eu senti o chão tremer.

Só posso esperar que ele tenha finalmente encontrado descanso.

N.

PS. Como sempre, aproveito para dizer que a minha doença está (sempre provisoriamente) sob controle. Sigo sem medicação, mas com acompanhamento médico, psicológico e homeopático. Sigo convivendo com os altos e baixos, com dias lindos seguidos por dias de horror. Sigo feliz. E sigo sem esquecer, um dia sequer, como dói.

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39 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

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August 13, 2014
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34 Comments

  • Fernanda

    Eu juro que queria escrever algo bonito e reconfortante para você, mas não consigo, porque não sei o que dizer. De fato, só quem tem essa doença ou acompanha de perto pode falar com propriedade (e para mim, você é a pessoa mais próxima que passa por isso), mas eu sei que seus filhos terão muito orgulho da mãe forte que eles têm.

    • Nivea Sorensen

      Fernanda, para quem não sabia o que dizer, não poderia ter dito nada melhor, viu? Muito obrigada x

  • Didi

    *suspiro*
    Um abraço

  • Netania

    Nívia, confesso que me emocionei muito com seu texto. Porque você conseguiu colocar por escrito tudo que eu sinto desde que soube da morte dele na segunda-feira a noite (antes de dormir) e desde então me senti abalada por isso tudo.
    Acompanho de perto essa doença e sei o quanto é difícil, Minha mãe está há um ano lutando contra a depressão e eu sei o quanto o fardo é pesado.
    É uma doença silenciosa e que dói não somente no enfermo, mas em todos a sua volta e que requer muita força e suporte de todos os lados.
    Quando li sobre como ele se foi, senti da mesma forma como você: Como um guerreiro que caiu. Um dos nossos que perdeu a luta.
    Torço por minha mãe, torço por você e por todos os guerreiros para que tenham sempre forças para continuar lutando.

    • Jamile

      Obrigada, força e fé a todos.

    • Nivea Sorensen

      Obrigada, Nethania. Doi muito em quem está por perto, eu sei. Vejo o quanto de sofrimento minha mãe passou por minha causa e sempre temo pelo meu filho que vai, infelizmente, aprender a conviver também com a doença.
      Um abraço grande x

  • Mariana

    Nívea,
    Super te entendo. Também faço parte do clube. Hoje, me sinto bem, caminhando para retirar a medicação e sempre fazendo terapia.
    Quero muito ainda viver em um mundo em que essa doença deixe de ser tabu. O acolhimento é tão bom e necessário!
    Boa caminhada pra todos nós. Que a gente siga em movimento, porque a vida pode não estar fácil mas é linda e preciosa.
    Beijocas com afeto

  • Lorna

    Nívea, eu ouvi tanta bobagem no FB sobre o suicídio que despertou em mim a vontade de aplicar para um financiamento e desenvolver algum tipo de programa para aumentar o conhecimento sobre essa doença (no caso, a depressão e suas complicações). Quem sabe eu não consigo unir saúde pública e saúde mental em um projeto tão motivador quanto esse.

    • Nivea Sorensen

      Lorna,
      Eu caí na bobagem de ler alguns comentários de um site de notícia e me senti muito mal com o nível de ignorância. x

  • Camila Novais

    Lindo texto!

    Fique bem 🙂
    xx

  • priscilla santos

    Que uma onda infinita de luz e boa energia tome conta de vc e que tudo isso possa passar um dia! Que Deus abencoe vc , sua familia…Grande beijo
    pri de Belzonte

  • Natália

    Que os dias de horror possam dar cada vez mais lugar aos dias lindos! Força! Estamos na torcida.
    Bjs

  • grace

    “Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe”… vamos vivendo um dia de cada vez… Desejo que os dias alegres prevaleçam! Beijo

  • Ingrid

    Realmente acho que somente quem tem depressao ou convive com alguém que tenha é capaz de verdadeiramente entender essa doenca e o impacto dela na vida da pessoa. Esse seu post me deu um apertinho no peito, por lembrar da minha mae que esta’ no Brasil e nao ha’ muito que eu possa fazer por ela aqui de longe além de orar.
    So’ posso desejar a voce e a todos que passam por isso muita forca e que os dias felizes sejam muito mais numerosos e frequentes que os nao tao felizes (porque voce mesma ja provou que podemos sempre encontrar uma alegria, por menor que seja, mesmo nos dias que nao sao os melhores).
    Beijos.

  • Camila Lins

    Oie Nivea,

    É realmente complexo lidar com a depressão. Muito se fala sobre quem convive com pessoas depressivas, mas creio que só quem tem compreende o outro. Sou psicóloga, já ouvi inúmeros relatos de pacientes quando estagiei em hospital, convivo com uma pessoa que tem depressão e com toda sinceridade não compreendo a doença. Um dia se está ótimo, no outro péssimo.
    Muito se fala em lutar contra, mas creio que se deva aprender a conviver com a depressão. É melhor do que lutar, ao menos para mim parece que é algo monstruoso, mas se a pessoa estiver disposta a encarar o tratamento, é possível conviver bem com a doença. Depressão profunda é realmente bem difícil tratar e o mais curioso que achei no caso dele é que a maioria de seus trabalhos são voltados para a comédia. Curioso como é o lado oposto da depressão.
    Que ele esteja em um lugar melhor e que você continue em seu tratamento e siga bem.

    Bjs

  • Silvana

    N.

    Escreva sempre. Sempre.
    Da minha parte conte sempre com minhas orações. Nos dias felizes e nos dias negros.

    Com imenso carinho.

    Silvana

  • Jamile

    Sabe, meus olhos encheram de lágrimas. É meu mundo tambem. Solidariedade….

  • kel

    Nívea, também sinto muito pelos que sofrem dessa doença terrível, sempre que tenho conhecimento de alguém que cometeu suicídio fico imaginando quão grande era a dor que a pessoa estava sentido, mas admiro quem luta para suportar a dor. Que você fique bem. Bj

  • Bibi

    Nívea,
    Confesso que vim aqui, li e não registrei nada.
    Fiquei pensando… sem saber o que escrever.
    Talvez, sobre você, não tenha nada para escrever, porque quem melhor que você pra saber de você mesma?
    Te admiro por abrir assim a tua vida. E talvez isso possa não ser fácil. Não sei.
    Tenho casos na família de depressão. De primos que se suicidaram, inclusive.
    Talvez até eu tenha. Não sei ainda. Ou não quero admitir. Ou seja outra coisa. Medo, insegurança…
    Vou recomeçar minha terapia, tão boa, tão querida para mim e que tive que parar. Por que parei? Não tem um motivo justificável. Têm ciclos. E eu quis parar quando engravidei da Nina. Agora, 2 anos e meio depois, resolvi voltar. Aconteceram tantas coisas. Acho que estou carregando o mundo nas costas (segundo a terapeuta e após voltarmos a conversar nas últimas semanas). Não vai ser toda semana como eu queria, porque ainda não tenho como. Será uma vez ao mês. Mas já está bom. Me sinto até mais confiante. Não sei por que, depois que voltei a falar com ela, por e-mail, passei a me sentir bem.
    Só sei que é importante. Nossa vida é uma loucura. Eu moro longe da família, dos meus pais, irmãs, sobrinhos… e me faz uma falta essa convivência. quando vou visitá-los me sinto tão segura, tão bem. E é todo o contexto da minha vida que me leva a essa conclusão.
    Bom, as coisas andam, mudam. A gente também.
    Beijos.

  • Liza

    Tambem nunca entendi todas as mensagens que as pessoas que nunca conheceram o ator poe nas redes socias, ate receber essa noticia. Tive vontade, fiquei triste mas preferi fazer apenas uma oracao. Embora minha sogra tenha falecido por causa dessa doenca e nao convivi com ela ou com niguem que tiveese essa doenca e so posso imaginar o tamanho da dor de um homem, que aparentemente tem tudo, pra tirar a própria vida.

    Fica bem, Nivea!!! xx

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