Gravidez Pretensões e Desabafos Vida na Irlanda

A novela da coluna e o problema de saúde da Irlanda

Bem antes da gravidez da Elena eu descobri que tinha um pequeno problema de formação na coluna, uma vértebra que desliza sob a outra, e vez ou outra causa uma inflamação num disco que fica entre essas duas vértebras.

A dor começa bem no finalzinho da minha coluna, quase no bumbum, do lado direito e irradia pela perna direita.

Nada muito sério, que precisasse de cirurgia nem coisa do tipo. Algumas sessões de fisioterapia e musculação para fortalecer a coluna foram suficientes para me livrar da dor e me manter bem por muito tempo.

Durante a gravidez da Elena, por causa da mudança de postura, do peso da barriga e da posição do bebê, eu voltei a sentir muitas dores. Começaram por volta da 26ª semana e me acompanharam até alguns dias depois do parto. Primeiro sutilmente, depois me obrigando usar muletas para conseguir andar, até o ponto de eu passar as últimas duas semanas de gravidez sem conseguir me locomover. Eu fiquei confinada em casa, Erik perdeu muitos dias de aula na pré-escola.

Sem poder tomar anti-inflamatórios, ou remédios para a dor, apesar de muita fisioterapia, a única solução seria uma injeção de esteróides direto na coluna. Fui colocada na lista de espera da maternidade, mas só fui chamada depois que a Elena já tinha nascido.

Nessa gravidez foi a mesma coisa. Assim que as dores começaram, avisei na maternidade que precisaria de uma consulta com o especialista. Com o meu histórico em mãos, o obstetra fez um pedido com urgência. Meu medo era de que se eu demorasse para me consultar com o médico eu poderia ficar na mesma situação em que fiquei no final da gravidez da Elena, só que dessa vez com duas crianças para cuidar, uma delas ainda dependente de colo.

Alguns dias depois recebi em casa uma carta marcando minha consulta para um mês depois (quando eu estaria com 32 semanas de gestação). Eu sabia que se esperasse até essa altura da gravidez ia ser novamente muito tarde para tomar a tal da injeção, já que a lista de espera da maternidade é gigante.

Até aí tudo certo. Lembrando que esse é o sistema público de saúde numa das maternidades de maior movimento da Europa. São muitos pacientes, poucos médicos, esperas enormes, tudo esperado.

Por isso cogitei procurar por um médico particular. E aí, na minha opinião, vem uma das maiores falhas do sistema de saúde irlandês. Se no Brasil basta você procurar por um médico, marcar uma consulta e pagar por ela, aqui não é bem assim. A maioria dos especialistas só atendem pacientes encaminhados por um Clinico Geral (ou Médico de Família). As listas de espera são grandes,  as consultas caras e nem sempre são lá essas coisas.

Procurei então a minha médica de família, a mesma que também acompanha meu pré-natal, e ela me disse que seria inútil tentar uma consulta particular. Nesse caso, a espera poderia chegar até três meses, dois se ela fizesse um pedido com urgência, mas segundo ela, jamais eu conseguiria uma consulta antes da que já estava marcada no hospital público.

Esperei, até porque não tinha mais nada a fazer. Nesse meio tempo a dor piorou, voltei a usar muletas, fui obrigada a parar a yoga e a academia, me consultei de volta com a fisio que só recomendou que eu continuasse a fazer alguns exercícios em casa.

No dia da consulta, como esperado, eles confirmaram o diagnóstico e o prognóstico. Só a tal da injeção poderia me trazer algum conforto nessa fase final. No entanto, com 32 semanas de gestação eu havia perdido a oportunidade de marcar o procedimento com médico e hospitais particulares (depois de 32 semanas nenhum médico poderia realizar o procedimento fora da maternidade, segundo me explicou o médico que me atendeu). Eu entraria mais uma vez na lista de espera, mas o próprio médico chegou a me dizer que não havia a menor possibilidade de ser chamada. Segundo ele a maternidade tem cesáreas demais de emergência o que impossibilita que médicos e anestesistas tenham tempo de fazer qualquer outra coisa.

Há essa altura minha dor estava no auge e acabou afetando meu estado mental. Eu mal conseguia sair de casa e qualquer esforço físico me deixava sem conseguir andar, com dores terríveis na perna direita.

Foi então que numa consulta com a minha psiquiatra ela resolveu intervir. Escreveu uma carta para o responsável da maternidade explicando que meu caso era grave, pelo meu histórico de depressão, que a dor me impedia de fazer atividades das quais dependia o meu bem-estar mental e coisa e tal.

Depois disso, não sei por qual motivo, as dores me deram uma trégua e apesar de certas limitações eu consegui retomar algumas atividades diárias. Voltei a meditar e a me sentir bem novamente, sem medo de estar deprimida.

Então na semana passada me ligaram do hospital agendando o procedimento para ontem. Resolvi aceitar, não tanto pelas dores que eu sinto agora, mas no caso delas piorarem muito até o final da gestação (que teoricamente pode durar ainda mais 6 semanas).

Fui internada às 7:30 da manhã, depois de 8  horas de jejum absoluto, e depois de ser atendida por vários médicos, enfermeiras e parteiras estava pronta para o procedimento. Me fizeram usar uma daquelas camisolas de hospital e meias de compressão.

Aí começou uma espera sem fim. Cada vez que eu perguntava se faltava muito, me informavam que uma cesárea de emergência havia aparecido e não havia anestesista, nem sala de cirurgia disponíveis.

Esperei horas e horas, 9 para ser mais exata. Então uma enfermeira percebeu que eu começava a dar sinais de desidratação (a fome já até havia passado, mas eu estava mesmo morta de sede, com os lábios rachados, pressão baixa e um pouco de tontura). Ela chamou o médico e ele decidiu me mandar de volta para casa.

Fiquei chatiadíssima, estava exausta (apesar de ter passado o dia numa cama de hospital) e irritada, com muita fome e sede, tudo à toa. Me trouxeram torradas com chá e eu esperei o Ian para me buscar. Ele demorou porque estava preso no trabalho, depois o trânsito estava horrível, parecia que o dia não ia ter fim.

Quando cheguei em casa só consegui tomar banho e cair na cama porque estava com muita dor de cabeça, e ironicamente, com dores na perna.

Dormi muito, muito mal, mas hoje acordei bem-humorada e feliz novamente.

Remarcaram meu procedimento para a próxima terça-feira, no mesmo esquema de “se der a gente faz, se não der você fica aí esperando o dia todo” mas eu ainda vou pensar se aceito ou se deixo para lá. Isso porque o esquema que tem que ser feito em casa para deixar as crianças, para o Erik não perder escola, para eu ter quem me leve e me busque no hospital, envolve muita gente e talvez seja muito barulho por nada.

Enquanto isso eu só fico na torcida mesmo para a dor não aumentar ou para esse bebê chegar antes. Ah, e para continuar precisando muito pouco ou nada de médico por essas bandas, porque olha, a coisa aqui não é das melhores.

Se pelo menos a gente tivesse uns Cubanos….

N.

 

 

 

19 Comments

39 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

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November 10, 2016
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19 Comments

  • Lai Cunha

    Nossa amore que dureza né. No Brasil realmente as coisas na área médica são bem mais tranquilas. Mas vai dar tudo certo. Estou torcendo. Bjs

    • Nivea Sorensen

      Lai, mais tranquilas para quem pode pagar um bom plano de saúde, né? Obrigada x

  • Luiza

    Oi nivea! Que tortura! Tu consegue ver algum motivo para esses problemas no sistema de saúde (tanto público quanto particular)? Sei lá, falta de profissionais, de organização… faço medicina e pretendo morar fora quando me formar então esse tipo de assunto me interessa hahah
    Beijão!

    • Nivea Sorensen

      Luiza, no sistema público falta investimento, menos do que no Brasil, mas falta. E o no particular faltam mesmo profissionais, lembrando que a Irlanda é um país bem pequeno. x

  • Bruna D

    oi Nivea, estou super feliz com seu terceirinho (a)!!!
    Deixa eu contar, sabe que temos muita coisa em comum, minha primeira filha nasceu em 02 de abril (Pertinho do Erick), tem 04 anos. Quando fiquei gravida do segundo, voce tambem estava esperando a Elena, o meu segundo nasceu em 30 janeiro e a sua pequena veio logo em seguida. Agora do terceiro eu fui mais rapida, ja esta com 4 meses e o meu do meio com a idade da Elena, 01 ano e 9 meses!!!Eu fiquei super feliz com sua terceira gestaçao!! Espero que suas dores melhores. E olha isso que vc falou de talvez desistir do procedimento por conta de com quem deixar as crianças, eu entendo bem, a gente precisa de uma equipe!

  • Andreia

    Verdade, Ni. Eu amo a Irlanda, mas disse que só teria outro bebê aqui no Brasil.

    • Nivea Sorensen

      Andreia, o sistema de saúde aqui tem muitas falhas, mas acho que na area obstétrica estamos anos luz a frente do Brasil. Eu, ao contrário de você, não terias filhos por aí, a não ser que pudesse pagar por uma equipe e ter um parto natural em casa.
      x

  • Luci Pires

    OI, Nivea, depois o pessoal se queixa do sistema público de saúde do Brasil, o de convênios então funciona, perfeitamente. Desejo que você melhore não precise do procedimento, Bjs

  • Mariana

    Nossa, que tenso!
    Não imaginava que fosse esse rolo todo para conseguir uma consulta com especialista particular.
    E pior, ter ficado o dia todo na esperança de que acabasse logo o sofrimento, para nada! Que chato isso.
    Espero que as dores dem uma trégua nesta reta final. De coração!

  • Larissa

    Olá, qualquer procedimento em fase final de gestação é desconfortável, mas se isso melhorará o prognóstico das dores pense com carinho se não vale o esforço para ter qualidade de vida.
    Bom, sobre o sistema de saúde, desconheço os estrangeiros, mas ouço inumeras reclamacoes. Interessante que nem assim, com tais comparações, as pessoas de cá dão o devido valor, deve ser porque o mérito aqui são das pessoas que fazem o sistema é reconhecer isso é quase um pecado! P.S. e não são os cubanos as quais me refiro, são os que sempre estiveram por aqui…

  • nathalia honci

    Hahahaha vc sempre ótima nas suas mensagens! Adorei a referência aos cubanos, enxergo mais uma coisa em comum nos nossos pensamentos! Bom seria é se a querida voltasse, porque já estão mandando esses, que prestaram o maior serviço nesse interiorzão que é o Brasil, embora. E espera é mesmo algo corriqueiro por essas bandas de cá da zoropa, mas ainda bem que contamos com um sistema para todos livre de preconceitos, ao menos isso! Muita, muita saúde e firmeza na sua reta final! Sei q vc n é religiosa, mas Deus é contigo! Um grande beijo!

  • Rita

    Oi querida que sufoco né mas olha como você é tão mas tão verdadeira com certeza o retorno virá logo, através dos seus filhos crianças q a gente sente q estão recebendo uma educação privilegiada por conta da sua verdade e obrigada por esclarecer sobre o sistema de saúde, abraços.

  • Marie

    Levarei dois anos para deixar de ficar estatelada. Poxa, eu reclamo muito do sistema aqui vizinho ao seu. Me deu bondade de chorar por imaginar sua dor, seu possível desequilíbrio mental por conta da intensidade da dor, operei a mandíbula 3 vezes e orei ao Senhor pedindo para morrer aos 25 anos por não acreditar ser capaz de suportar tamanha dor no osso. Nívea, aceite, vc pode pedir soro para não desidratar? Fazer fisioterapia na água? Sugiro gastar mas ir e voltar de táxi combinando a ida com antecedência para evitar stress. Não se permita o risco eminente de dor insuportável. Vc conhece um especialista chamado OSTEOPATA? Meu seguro saúde não para, sinto dores mortíferas no ombros tipo facada mesmo! Estou no quiropraxia.
    Penso que dor intensa é enlouquecedor, eu tinha 8 parafusos na mandíbula e paracetamol, deprimo ao lembrar que recebi alta com essa receita e tomava tantos que minha sogra tadinha me proibia, desde quando paracetamol é para dor de osso remendado a titânio? Pobre de quem não nasceu para ser esposa de médico… e como seria se fosse a esposa do diretor? Que baixem decreto e chamem os cubanos urgentemente!!!
    Aí eu gargalhei alto!!!
    Estimo suas melhoras.

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