depressão Pretensões e Desabafos

A depressão no dia-a-dia

Depressão é um assunto que aparece sempre por aqui e isso não vai mudar.

Isso acontece porque a doença faz parte da minha vida e eu não tenho vergonha disso. Muito pelo contrário, eu sei que falar sobre o assunto desmistifica a doença, ajuda quem sofre com o problema tanto quanto eu e diminui o preconceito. 

Há muitos anos eu fui diagnosticada como portadora de Transtorno Depressivo Maior, um quadro mais grave de depressão recorrente (ou seja, que se repete) que tem grande relação com a herança genética. Além disso eu sofro de Transtorno de Ansiedade Generalizada (caracterizado pela presença quase permanente de preocupação ou tensão).

Por já ter sofrido alguns episódios de depressão profunda muito graves as minhas chances de sofrer uma recaída são ainda maiores. Isso porque a depressão causa uma mudança química no funcionamento do cérebro (que pode ser desencadeada por causas físicas ou emocionais), o que não tem volta. Ou seja, é como seu meu cérebro já estivesse condicionado a produção de menos endorfinas e mais cortisol (o hormônio do estresse) e sofresse uma pane de vez em quando.

Eu vivo evitando uma recaída mas sabendo que elas acontecerão.

Isso não quer dizer que eu esteja sempre querendo morrer. Pelo contrário, eu vivo muito feliz mas preciso fazer um esforço muito maior do que a maioria das pessoas para viver bem.

Basicamente o que acontece é que eu vivo em três estágios diferentes. O primeiro (e felizmente o que consome a maior parte dos meus dias) é o de bem-estar. Ele com certeza acontece por causa da medicação que eu tomo diariamente e para o resto da vida (atualmente eu tomo uma combinação de dois tipos diferentes de antidepressivos). Nesse período eu preciso ainda de muitos outros cuidados além da medicação: 1) Terapia: atualmente uma sessão semanal com uma psicóloga cognitiva comportamental; 2) Atividade Física: pelo menos 3 vezes por semana. Qualquer coisa conta, desde uma caminhada até uma aula de academia; 3) Meditação: Prática diária de Mindfulness (atenção plena), tanto em pausas especificas para isso (fazendo 20 minutos de meditação guiada por um aplicativo no telefone) quanto durante as atividades diárias; e 4) Cuidados Pessoais: me arrumar pela manhã, cabelo, maquiagem, roupa para encarar o dia, tudo isso faz com que eu “pareça” bem e consequentemente me “sinta” bem (perceba a ordem inversa).

Nesse período também eu preciso estar atenta ao surgimento de sintomas que antecedem um episódio de depressão profunda: insônia, exaustão física, raiva sem razão aparente, perda de interesse em coisas que antes me deixavam felizes (como ir à academia, por exemplo) dificuldade em executar tarefas básicas (como escovar os dentes e me arrumar).

Ou seja é uma luta diária. Uma luta para o resto da vida. Mas uma vida que não deixa de ser normal.

Alguns dias não são tão bons. Se eu não dormir bem, por exemplo, por algumas noites seguidas ou se ficar doente, ou ainda durante meu período pré-menstrual, eu enfrento pequenas recaídas. Ás vezes elas surgem também sem muita explicação. Felizmente duram pouco, um dia, no máximo dois.

Esses são períodos em que eu preciso de ajuda já que não sou capaz de cuidar dos meus filhos. Olivia (a cuidadora das crianças), meu marido Ian e meus sogros (quando as crises duram mais tempo) se revezam nessa tarefa de manter as coisas em ordem enquanto eu me recupero.

O que acontece nesses dias é uma completa exaustão mental e física. É como se levantar da cama e me vestir fosse uma tarefa muito mais elaborada e cansativa do que realmente é. Tudo involve um esforço monumental. Meus pensamentos ficam confusos, a ponto de eu não saber o que fazer primeiro. A única alternativa é descansar, mas continuar me forçando a conviver socialmente (o que quer dizer, descer para jantar com a familia, por exemplo) e me manter minimamente ativa (levantar e fazer a cama, ainda que seja para voltar a deitar).

A vontade nesse período é de desistir, de simplesmente ficar na cama e é esse o caminho para um episódio mais grave. Aquele que eu tentei descrever nesse post aqui. Por isso nesses dias eu luto com todas as minhas forças.

Tive na vida inteira cerca de 4 desses episódios de horror absoluto e o último me levou a uma internação. Desde então eu tenho me mantido bem. Até quando? Até a próxima. Porque a única certeza que eu tenho nessa vida é que tudo passa.

N.

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9 Comments

38 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

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August 1, 2017
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9 Comments

  • Mariana

    Obrigada por colocar, tão bem, em palavras o sentimento de tantos de nós.
    Força pra nós!
    Beijos

  • Maíra Moreira

    Nivea, parabéns pelo seu relato! Acredito que escrever tbm seja um alívio para você.. colocar em palavras deve ajudar a enfrentar o dia-a-dia.
    Se não for mt envasivo, você pode nos contar um pouco de como é/foi a reação da sua família em relação a sua depressão?
    Se for envasivo, peço desculpas desde já!

    beeijos.

  • Marina

    Oi Nivea, td bem?
    Qual aplicativo vc usa para meditar?Estou usando o Prana Breath, mas gostaria de sugestões!
    Obrigada!

  • Alessandra Mosquera

    Só quem sofre ou já sofreu de depressão sabe como essa doença é horrível. Minha mãe tinha depressão e ansiedade e eu tive crises de depressão várias desde os 12 anos, algumas fortes. Fui medicada, fiz terapia, também tive depressão pós parto, fui demitida por causa minha depressão, ouvi o clássico “se esforça um pouco para sair dessa”, “você não tem motivos para ficar assim”, “vá tomar um chá”, “pensa no seu filho”… as pessoas não sabem o que é a depressão, pensam que é sentir-se triste apenas, e é muito mais complexo do que isso. É escutar uma voz na sua cabeça 24 horas dizendo que você não merece o ar que respira. É sentir os braços, as pernas, a cabeça, pesando toneladas, e as atividades mais triviais parecerem a maratona. Agora estou considerada curada, mas sei que uma hora “minha amiga” vai voltar. Eu tenho duas “amigas”, a depressão e a asma, e fui obrigada a conhece-las e a saber como identifica-las quando estão chegando. Meu caso não é tão grave como o seu, mas tive duas crises de pânico e estive perto do suicídio. Para mim, o que ajudou, além da medicação e da terapia, foi ler, ler muito, e escrever. Andar ajuda mesmo, bastante. Comer bem (de forma saudável). Fazer relaxamento. E, particularmente, o que me ajudou na minha última crise foi montessori. Não há estudos relacionados com montessori e depressão, só com demência. Mas a demência está ligada a depressão, o que faz eu acreditar que não foi por acaso que me senti melhor com montessori.
    Um abraço pra vc, Nívea, e para todos que sofrem dessa doença horrível.

  • Netania

    Estaremos sempre do lado de ca, na torcida para que os dias de tempestades sejam bem curtinhos e que o sol volte sempre a brilhar em seguida!
    Beijos

  • Maria do carmo

    Congratulations on the initiative to explain a little about what depression is many people are suffering from the disease itself and also the lack of knowledge of people who see the symptoms as nonsense are often ridiculed the person with depression is actually in need of help

  • Analu

    Oi Nívea!
    QUE BOM, de verdade, que você fala desses assuntos aqui, porque eles são extremamente necessários e é difundindo informação que a gente diminui o preconceito. Eu também fui recém diagnosticada com TAG, e meu ano tem sido bastante difícil, mas estou revertendo isso! Estou indo à terapia (também cognitivo comportamental) e gostado muito. Além disso estou usando medicação, que o psiquiatra me receitou a princípio por até um ano, enquanto fazemos acompanhamento. Além disso faço um outro tratamento psicológico, de neurofeedback, que é bem interessante e ouvi dizer que é muito bom pra ansiedade, e usando homeopatia. ENFIM, parece muita coisa, mas só da gente aceitar que a gente tá passando por um problema que precisa ser administrado a gente já se sente um pouco mais forte, né?
    Um beijo grande pra você e melhoras, sempre!!

  • Joana

    Nivea, eu já leio seu blog há anos e sempre que há post novo eu venho espreitar, embora não costume comentar. Gosto muito da sua forma de escrever e de relatar não apenas o dia-a-dia mas também assuntos mais profundos como este. Parabéns pela coragem de partilhar algo tão pessoal no seu blog, acredito que suas palavras vão ajudar pessoas que neste momento se sentem sozinhas e frágeis.
    A depressão é uma doença terrível e quem lida com ela sabe o que custa. Parabéns por cuidar de si mesma e por dar prioridade à sua saúde.
    Beijos

  • Mayara

    Nivea, seus textos sempre ficam martelando na minha cabeça, num compasso ritmado, como música. Eles fazem eu me questionar, me desAfiam. Esse, em especial, me fez pensar na minha saúde mental e estou aqui d perguntado se talvez eu deveria procurar terapia. Como vc descobriu a depressao?

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