Filhos & Família Vida na Irlanda

Educando para a diversidade

Erik frequenta uma escola publica, não religiosa, que não separa meninos de meninas e que não faz uso de uniforme.

Isso é uma raridade aqui na Irlanda onde a imensa maioria das escolas são católicas, dessas que não aceitam crianças não batizadas, que ensinam a rezar e incluem no currículo aulas de catecismo e onde meninos e meninas não se encontram às vezes nem nos intervalos; onde os meninos precisam usar gravata e as meninas saias no joelho. 

Veja bem, eu não tenho religião mas não tenho nada contra a sua especificamente, só acho que de maneira nenhuma religião deve se misturar com educação. Acho, aliás achamos porque o Ian tem a mesma opinião, mais importante para o NOSSO filho que ao invés do pai-nosso ele aprenda que existem outras tantas formas de expressar, ou não, fé e espiritualidade (na escola ele já teve contato com um pouco de judaísmo, budismo, hinduísmo; já praticou yoga e meditação).

Fizemos questão de que fosse assim para que ele tivesse o maior contato possível com a diversidade. De religião, de gênero, de cultura. Enfim, queríamos que ele estudasse na mesma sala com meninos e meninas; com católicos, ateus, protestantes, judeus, muçulmanos, budistas; filhos de irlandeses, de famílias meio-a-meio (como a nossa) e de estrangeiros.

Resumidamente, queríamos que a escola representasse a forma como nós vemos o mundo e educamos nossas crianças em casa.

Na prática funciona exatamente como na teoria: crianças de todas as cores, nacionalidades e crenças crescendo e aprendendo juntas.

Na turma do Erik, por exemplo, existe uma criança transexual: um menino que se identifica como menina. Os pais respeitam totalmente a opção da criança, que se veste de fato como uma menina, mas optaram por manter seu nome de menino, pelo menos por enquanto, segundo eles, para deixar em aberto qualquer possibilidade para que ela escolha no futuro como prefere ser chamada.

Aliás, se eu mostrasse uma foto com toda a classe do Erik você não conseguiria diferenciar essa criança de nenhuma outra menina, a não ser por acaso.

Eu já comentei isso alguma vezes, entre familia e amigos e também já falei do assunto no snapchat (onde eu costumo mostrar um pouco do meu dia-a-dia com as crianças) mas nunca escrevi sobre o assunto no blog até que me pediram para fazer isso.

O assunto gerou curiosidade e muita gente, lá no snapchat, me perguntou como lidamos com essa situação.

O fato de não ter virado um post aqui no blog, até agora, reflete exatamente como a gente “lida com a situação”: com naturalidade.  Ou seja, para gente nunca foi um “big deal”, só um fato curioso. Ou melhor, um reflexo positivo de como a escola é inclusiva.  Aliás, é sempre dessa maneira que eu menciono o assunto, para falar sobre a escola e não sobre a tal criança,

Nunca houve nenhuma conversa séria a respeito disso ou nenhum tipo de problematização, nem por parte da escola, nem entre os pais e muito menos aqui em casa.

Erik e ela são melhores amigos e frequentam a casa um do outro com certa frequência. Quando os vejo brincando juntos nem me passa pela cabeça se são meninos ou meninas, para nós aqui em casa eles são crianças de 6 anos e brincam como crianças de 6 anos: com lego, de correr pela casa, de fazer picnic, do que bem quiserem.

Nessa idade as crianças são livres de pré-conceitos. Erik por exemplo, nunca se perguntou porque uma menina tem nome de menino e sempre diz que ela é uma das meninas mais bonitas da escola (o que é de fato verdade).

Claro que um dia essa pergunta vai surgir e nós vamos continuar não criando problemas onde eles não existem. Perguntas vão ser respondidas com verdades, de uma maneira apropriada para a idade dele, à medida que elas surgirem. É nome de menino? É. Por que? Porque nasceu menino mas quer ser menina. Pode? Pode, ué!

Fácil assim. Para que complicar, gente?

Enquanto isso, a gente segue feliz com a escolha de uma escola onde a gente tem certeza que cada criança de fato pode ser o que é, e onde o lema “Aprendemos juntos para vivermos juntos” não é só uma frase bonita para enfeitar o website.

E eu que um dia entrei na faculdade para mudar o mundo não sabia que o mundo mesmo eu ia começar a mudar dentro da minha própria casa, com essas pequenas pessoas que saíram da minha barriga e que um dia vão estar por aí espalhando respeito e amor, que é só o que elas aprendem comigo. Precisa de diploma para isso, não gente.

Que seja muito mais bonito esse mundo deles.

N.

8 Comments

38 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

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May 17, 2017
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8 Comments

  • Tatiana

    Ótimo post! Se todos os pais e mães pensassem assim, o mundo já seria bem melhor! Obrigada por compartilhar conosco essa sua sensatez!

  • Audrey

    Adoro seus posts já estava com saudades !!!!!!
    Parabéns pela familia linda !!!!!
    BJs

  • Amine

    7 anos que sigo seu blog, e você continua a me surpreender positivamente a cada post.

  • Lidia

    que Maximo! 😍
    Beijos 🇦🇺😘😍

  • Izabel

    Que oportunidade incrível conviver de forma natural com o que é diferente!
    Beijinhos

  • Lud Vieira

    Amei o post!
    Penso muito parecido com vocês (pra não dizer igual) e adorei saber mais sobre a escola que o Erik estuda e o respeito à diversidade! O mundo está precisando de mais pais como vocês e mais escolas como a do Erik!

  • grace

    Coisa linda esse post, até me emocionei! Como as crianças podem ser tão mais sensíveis que nós adultos… e você tem razão para que dificultar as resposta né? Beijo

  • maria soares

    Ola! Perfeito, voce escreve com o coração!
    Maria.

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