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O caminho do meio (convivendo entre a doença e a sanidade)

Quando alguém me pergunta “como você está?” eu quase sempre respondo “estou bem”, o que não é nem mentira nem verdade.

Se a pergunta tiver como parâmetro o período em que estive internada, ou o período mais agudo da minha depressão, logo antes da internação, eu estou realmente muito bem. 100% melhor do que estava.  Agora se a pergunta for mais ampla, aí o “estou bem” é só uma parte da resposta.

Estou bem, MAS ainda estou com depressão. E o que quer dizer isso?

Eu não estou triste, pelo contrário, a medicação agora parece estar acertada pelo menos no que se refere ao meu humor. A falta de vontade, o vazio absoluto, a falta de sentido na vida, tudo isso já passou. Ou seja, eu saí de um buraco sem fim e estou de pé, lutando com as minhas pernas para vencer a doença. Essa era a prioridade. Estou bem? Estou ótima.

Os piores efeitos colaterais da medicação também já aliviaram. Os pesadelos já não consomem todas as minhas noites, não preciso de calmantes ou outros remédios para conseguir dormir, mas meu sono ainda não é exatamente natural, muito menos reconfortante. Sinto muita fome, mas bem menos do que no início do tratamento. Alguns dias consigo me alimentar bem, outros não. Estou bem? Estou, mas posso e preciso ficar melhor.

Estou levando uma vida “quase” normal. “Quase” porque ainda me sinto muito cansada, quase sem nenhum estoque de energia em algumas horas do dia, às vezes dias inteiros. Quero muito sair, ficar acordada até tarde, ir para a academia todos os dias, fazer compras, levar e buscar meu filho na escola, brincar com os dois, levá-los para passear, enfim, levar uma vida normal, mas mesmo quando tenho um pouco mais de energia preciso evitar essas atividades para não me cansar demais. Estou bem? Estou 30% normal.

Ao mesmo tempo também preciso me manter ativa, então uso uma técnica aprendida na terapia que é escolher no máximo três atividades prioritárias por dia (uma de manhã, uma à tarde e outra à noite). Essas atividades precisam ser variadas e envolver aspectos da minha vida social, em família, e aquelas feitas só para me dar prazer: só uma atividade física, só uma atividade doméstica, só uma com as crianças e assim por diante. Por exemplo, se levo o Erik na escola de manhã, não posso dar o banho da noite. Se vou cuidar da rotina da  hora de dormir (banho, jantar, escovar os dentes, estória e colocar na cama) quem cuida da rotina da manhã (café-da-manhã, escovar os dentes, trocar de roupa, levar para a escola) é a minha sogra.  Se saímos para andar de bicicleta eu não posso ir à academia.

Tenho muita, mas muita dificuldade de me levantar de manhã. Isso é novidade para alguém que sempre gostou de acordar cedo e que costumava estar na academia para a primeira aula do dia às 6:30 da manhã. Hoje, não importa o horário (pode ser às 7am ou 11am) eu acordo como se alguém estivesse me forçando a sair da cama às 3 da manhã, ainda que eu tenha dormido cedo. A sensação é sempre essa, a de ser tirada da cama no meio do sono. Fico desorientada, perdida, irritada e tudo o que eu faço nessa primeira hora do dia é feito no esquema de um passo por vez: levantar, escovar os dentes, me trocar. Só depois é que me sinto um pouco melhor, capaz por exemplo, de ir à academia ou de fazer qualquer outra coisa.

A partir daí é que eu preciso tomar cuidado. Minha energia volta ao normal mas eu preciso me conter. Não é porque me sinto bem e animada que posso fazer tudo o que fazia normalmente. Se eu agir assim, antes das 4 ou 5 da tarde eu passo de novo por um período de completa exaustão e depressão profunda no dia seguinte.

Encontrar o caminho do meio é difícil.

Para se ter uma idéia, uma ida ao shopping com minha sogra e as crianças na semana passada fez com que eu não conseguisse sair da cama no dia seguinte. Nesses dias, a depressão volta a assustar me fazendo perder qualquer noção de realidade. É como se de novo eu fosse incapaz de mexer um músculo do corpo. A única vontade que eu tenho é a de comer carboidratos e açúcar. Vencer a compulsão também exige energia, o que me deixa ainda mais cansada. Se eu descansar, no dia seguinte eu acordo de novo melhor e de novo preciso vencer o desafio de guardar minha energia. É como andar numa corda bamba.

Não é preciso dizer que desse jeito eu ainda não consigo cuidar da casa e das crianças e por isso meus sogros ainda passam quase toda a semana aqui em casa, o que é bastante frustrante para mim.

O quanto disso tudo isso é normal, é parte do período de recuperação pelo qual estou passando, quanto é parte dos efeitos colaterais provisórios da medicação e quanto é parte dos efeitos com os quais eu vou ter que conviver por pelo menos alguns anos (talvez pelo resto da vida) não dá para saber com certeza.

A opinião da minha médica é a de que o cansaço vai passar assim que meu corpo se recuperar do grande trauma que foi o meu último episódio de depressão, que essa recuperação ainda deve ser muito longa e que eu preciso aceitar isso e deixar o tempo agir, me deixar ajudar e me fortalecer aos poucos.

Ser generosa comigo mesma é meu desafio, torcer para que a médica esteja certa, minha grande esperança.

N.

 

 

 

 

 

16 Comments

39 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

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January 11, 2016
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16 Comments

  • Netania

    Você é uma guerreira e com certeza vencerá mais está batalha. No meio disso tudo ainda encontrar forças para compartilhar sua história, não é para qualquer um. Estamos na platéia torcendo por você.
    E não deixe de escrever, pode ter certeza que você está transmitindo forças para outras pessoas através dos seus textos.
    Keep it up!!! 😉
    Beijos

  • Mariana

    Nívea,
    fico feliz em saber que você está melhorando a cada dia. Na minha jornada aprendi duas coisas que tento colocar em prática (vivo escorregando mas não desisto!): o tal de um dia de cada vez (se for preciso um minuto de cada vez) e aceitação. Não adianta eu querer ficar brigando com a realidade. Mais fácil aceitar e mudar o que eu dou conta naquele momento.
    Quanto à questão da energia, sempre me achei uma pessoa com pouca. Parece que as mínimas coisas me demandavam muito. Vi que a falta de energia alimentava um círculo vicioso entre o físico e o mental: o mental esgotava o físico e o físico não ajudava no mental. Já tinha tentado de tudo: remédio (ainda tomo. Numa dosagem baixa mas tomo.), terapia (ainda faço), florais (me ajudam), homeopatia (pra mim não funcionou), exercícios físicos (faço muito menos do que deveria mas já faço algum)… Até que comecei a fazer acupuntura e vi uma melhora grande. Não faço com agulhas pois tenho pânico. Faço com cristais radiônicos. O resultado é mais lento do que com a agulha mas tem valido a pena. Espero que você encontre logo algo que te ajude nessa parte.
    Obrigada por continuar compartilhando conosco essa sua caminhada. Precisamos falar disso muito e sempre. Ah! Gostei do vídeo que você compartilhou no outro post. Delicado.
    Força e luz pra você!
    Beijos

  • Paula Oliveira

    que luta, nivea. te desejo forças.
    xx

  • Mari Almeida Reilly

    Isso, um dia de cada vez e daqui a pouco você estará comandando seu barco de novo, como vc disse naquele post tao bonito. E confie na medica sim! xxxx

  • karine

    Amiga, você vai sair dessa! Te achei bem melhor semana passada do que na época da internação, acho que foi o que a médica falou, seu corpo e mente precisam se recuperar do baque e das sequelas da sua última crise.
    Um beijo e estou aqui.

  • Renata Marques

    Obrigada por compartilhar o momento. Ainda não está 100% mas está no caminho. Com isso vamos aprendendo também.
    Abraços.

  • Nivea Sorensen

    Obrigada, Renata x

  • Juliana

    Também estou passando por uma fase bem difícil!!
    Este blog é muito legal. Alguém realmente com coragem para expor um assunto delicado como este.
    beijos

  • Marie

    Eu vou orar por você. Creia no que a médica falou. Peça ao Senhor Jeová que lhe ajude através de Jesus Cristo que ele dará ordem aos anjos por ti assim como está escrito no Salmo 91. Um abraço apertado!

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