Meu babóg Pretensões e Desabafos

Durante (Um Mea Culpa parte III)

E com tudo indo muito bem, obrigada, E. passou a não dormir mais à tarde. Mais do que normal, mais do que esperado, muito mais do que previsto. Eu sabia que isso aconteceria cedo ou tarde e que teria que me adaptar.

Ao mesmo tempo o trabalho começou  a pipocar. Muitas mensagens para responder, orçamentos para fazer e um aumento considerável de encomendas por semana. As compras passaram a ser feitas no atacado e a papelada começou a acumular já que eu tenho que manter a contabilidade básica em ordem (o contador só verifica os livros uma vez por ano para fazer o imposto de renda).

Comecei então uma jornada tripla de trabalho diária: os cuidados com E., cada vez mais levado, com a casa (eu não tenho nem ao menos faxineira) e com a doçaria. Tudo feito ao mesmo tempo. Incontáveis vezes me vi no fogão mexendo brigadeiro com E. chorando no colo e respondendo emails ao mesmo tempo, com um bolo no forno, outro na batedeira e jantar no micro-ondas.

Por um tempo achei que estava tudo bem e que estava conseguindo conciliar tudo apesar do cansaço, apesar do apartamento não estar sempre super limpo, apesar do E. ter voltado a chupar chupeta durante o dia e começar a assistir mais televisão.

Eu achava que tudo bem aceitar uma encomenda de bolo para o dia seguinte e ter que cancelar o programa matinal com E. para ir ao supermercado comprar os ingredientes que faltam. Tudo bem que eu tinha prometido que nós iríamos ao parque. Tudo bem colocá-lo no carrinho (porque se ele for andando ele levo uma hora para chegar ao mercado) e sair com ele aos berros me pedindo para caminhar. Uma hora de ida e volta com ele chorando na minha orelha e eu me segurando para não berrar também. Tudo bem dar a chupeta e colocar um desenho enquanto o brigadeiro está no fogo. Tudo bem levar a tarde inteirinha com o brigadeiro no fogão porque eu tenho que parar a cada 30 segundos para ver o E. que mesmo de chupeta, mesmo com o desenho, não sossega a bunda na cadeira. Tudo bem eu ficar muito estressada com o fato de que a tarde vai passando e eu ainda não terminei a cobertura, nem comecei o recheio e ainda vou ter que passar boa parte da noite assando o bolo (depois do jantar e banho do E., depois do nosso jantar). Tudo bem que eu vou esperar até as 3 da manhã para o bolo esfriar e eu saber que assou por completo, que não tem falhas. Tudo bem eu acordar as 6 para terminar de cortar, rechear e cobrir um bolo que precisa ser entregue às 8. Tudo bem que de novo eu não vou levar E. ao parque porque o cliente vai atrasar e de última hora ligar e dizer que só vem retirar o bolo à tarde.

Tudo bem lavar o banheiro enquanto E. tira todos os livros da estante e depois ficar brava com ele por isso. Tudo bem passar roupa enquanto ele tira toda a roupa de cama no nosso quarto. Tudo bem levar 30 minutos numa atividade doméstica e depois mais 20 minutos arrumando a bagunça que ele fez no meio tempo.

Tudo bem.

Eu só percebi que não estava tudo bem o dia que gritei loucamente com ele por ter espalhado massinha enxarcada em suco pelo carpete da casa inteira logo depois de eu ter passado aspirador de pó (com ele sentado em cima, claro). Gritei feito louca porque larguei o doce no fogão e queimei o trabalho que vinha fazendo há mais de 4 horas: 3 litros de leite condensado e chocolate belga queimado indo para o lixo. Surtei. Sentei no chão da cozinha exausta (e sabendo que precisaria continuar trabalhando) e chorei muito, descontroladamente.

Olhei ao redor e só vi caos. Vi a casa de pernas para o ar, vi doces por todos os lados, vi toda a louça da cozinha suja e o jantar a fazer, e pior do que tudo isso, vi meu filho muito assustado. Vi uma criança de 3 anos, que tem mesmo que estar espalhando massinha pelo chão, assustada e infeliz com os meus gritos. Eu havia gritado com ele por estar sendo criança. Eu vinha gritando com ele frequentemente só porque ele vinha fazendo o possível para chamar minha atenção.

Estava brava com ele por ele não me deixar trabalhar. Brava com uma criança sem nenhuma maturidade para “me deixar trabalhar”. Brava com uma criança porque ela não para quieta. Fiquei brava porque ele estava reagindo ao meu abandono e só então eu me dava conta disso. Há tempos E. vinha me evitando. Há tempos ele chorava muito quando o pai saia para o trabalho, há tempos ele corria para o pai quando ele chegava em casa e não queria mais minha companhia. Ele já não queria que eu cantasse para ele antes de dormir e chorava pelo pai no meio da noite. Há tempos ele não me queria brincando com ele, provalmente cansado de quantas vezes eu tinha que parar para fazer outra coisa, ou quantas vezes eu disse “agora, não”, “depois”, “estou ocupada”.

Eu o deixei de lado. Ele fez o mesmo comigo. Doeu muito perceber isso. Doeu perceber que “estar” em casa com ele não era o suficiente. Eu precisa mesmo era ter tempo para ele. E que nessa vida nem sempre a gente tem tempo para tudo.

Ali no chão da cozinha eu pensava em qual era a minha prioriade. Então ele veio até mim me abraçou e me disse, como ele sempre diz que estava tudo bem. Ele estava assustado e ainda assim veio me consolar. Pedi perdão para ele e ficamos ali por um bom tempo, abraçados.

Ali no chão da cozinha eu tive a maior certeza dessa vida de que minha prioridade é só ele.

N.

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39 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

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May 19, 2014
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35 Comments

  • Bruna Dalfré

    Fiquei emocionada, com certeza sua melhor escolha!
    Que bom que percebeu tudo isso que estava passando com E., muitos não percebem e muito menos se importam.
    Eu não trabalho fora e ainda nem pretendo, mas só com os cuidados da casa e da pequena é bem difícil e tem dias que não dá pra deixar tudo limpo e arrumado, antes até me culpava, mas agora eu não ligo, a minha prioridade é ela!=]
    Ah eu odeio gritar, odeio ficar brava com algumas atitudes de criança mesmo, mas melhorei bastante, aos poucos vamos aprendendo!
    Beijos

    • Nivea Sorensen

      Eu tinha melhorado, Bruna. Tinha parado mesmo de gritar, mas muito difícil quando o tempo é curto e você tem outras coisas a fazer. x

  • Ingrid

    Nossa, já pelo meio do post estava me perguntando como você não tinha surtado com tanta coisa! E também cheguei à conclusão, antes de você mesma falar, que ele estava fazendo as coisas para chamar sua atenção.
    Estou curiosa para saber o “depois” com a sua decisão (diminuir a quantidade de encomendas, imagino), mas tranquila por saber que está tudo bem pelos seus outros posts.
    E lembre que você não é a mulher maravilha para fazer tudo (e ainda ao mesmo tempo). Ao menos esse choque foi bom para lembrar sua prioridade.
    Beijo.

  • Mariana

    Querida, em primeiro lugar, que bom que tudo voltou a ficar bem. As fotos que você tem postado mostram muito dessa alegria que está de volta.
    Parabéns por ter dado conta de perceber (não acho fácil) e, principalmente, por se dispôr (menos fácil ainda) a mudar. Acho que é mostra do seu amadurecimento. A vida é um eterno aprendizado, né?
    Tenho certeza de que o Erik, além de amar muito, te admira. Ele ainda vai te contar do orgulho que ele tem de você.
    Felicidade para vocês três e que vocês usufruam muito dessa nova etapa.

  • Fernanda

    Errou e percebeu o erro.Não percebeu tarde demais!!!
    Que coragem, que batalhadora,que garra, que disposição.
    Parabéns,N.

  • Didi

    Engoli em seco e me vi, também, dizendo que não posso e pedindo um tempo enquanto meu menino fica assistindo tevê e chupando chupeta. como é difícil, né. Nem sei o que dizer e pensar e fazer. Vai escrevendo assim quem sabe eu tenho uma luz aqui também.
    Obrigada pelo post que ampara de forma igual.
    beijos

    • Nivea Sorensen

      Obrigada, Didi. Eu acho que é uma fase que não necessita mais de atenção mesmo, não adianta tentar conciliar. Espero que você encontre o que funciona ai com vocês x

  • Gabi Ramalho

    Que bom quando podemos usar as crises pra entender os motivos, pra rever as prioridades, pra mudar o que precisa ser mudado!

    Terminei seu post arrepiada e com lágrimas nos olhos – principalmente por já ter lido lá na parte 1 que ficou tudo bem depois! rs

    Beijos

  • Ananda Etges

    Nivea,

    Eu me vi em muitos momentos do teu relato.
    Um abraço apertado.

    Beijos,

    Ananda

  • Thais Bessa

    Que difícil. Mas essa é a vida das mães que trabalham, conciliar trabalho, filho e casa, e não é fácil. Eu só acho que o childcare tem que ser proporcional às horas que a gente trabalha. Como vc disse, seu negócio está crescendo (viva!) então não dá pra continuar com só um dia na creche. Eu trabalho full-time de casa e algumas vezes tentei com a Bebella em casa e não dá certo! Não faço nenhum dos papéis direito! Pra num funciona compartimentalizar: quando eu estou trabalhando é isso e quando eu estou com elas não faço mais nada, nem serviço de casa (só depois que elas dormem ou revezando com o marido, de forma que tem sempre algum de nós com ela e outro fazendo algo na casa). Nunca tivemos ajuda, mas quando eu voltar de licença vamos ter que arranjar uma cleaner por 3 hrs a cada 15 dias. A casa é enorme e com duas agora, temos que jogar a toalha que não dá pra continuarmos só a gente!

    Sobre o grito, eu juro que nunca havia gritado com a Bebella. Nem sequer levantado a voz. Isso até a Lia nascer. Aí eu me peguei grita do algumas vezes. Nada muito pesado mas um “I TOLD YOU NoT TO DO THAAAAt!!!!!” Mas resolvi voltar ao que era antes. Ela não tem culpa que eu decidi ter um bebê e é difícil pra caramba nos primeiros meses. E ela também se sentiu, como o Erick. Toda vez que levantei a voz ela chorou desconsolada “you shouted at me”, com um olhar de betrayed mesmo. Morri. Andei lendo muito e achei uma página mo face de Positive Parenting que dá informação e daily tips para um compromisso de não gritar. É um exercício diário de auto-controle e as dicas têm me ajudado.

    Nossa, acabei desabafando tb! Boa sorte aí e acho que o principal que quis dizer é, compartimentalizar e aumentar o childcare e ajuda na casa é crucial!

    Bjs

    • Nivea Sorensen

      Era isso que eu fazia antes, Thais. Trabalhava poucas horas enquanto ele dormia. Meu trabalho não justifica o investimento de mais horas de creche então estou buscando outra alternativa para dividir as coisas.
      Eu já tinha deixado de gritar, mas não há paciência que resista a uma birra quando você só tem 5 minutos para trocar uma fralda, por exemplo.
      x

  • Thais Bessa

    PS: e em sua defesa, massinha com suco no carpete é pra enlouquecer! Aqui quando a hente reformou a prineira coisa foi tirar todo o carpete, eu tenho TOC (sério) e meu marido tb (embora ele se recuse a ser diagnosticado oficialmente, rs). Com carpete a gente ia infartar em menos de um ano!!!

    • Nivea Sorensen

      Thais, o apartamento é alugado e não podemos tirar o carpete. Ainda estamos no processo de compra de um apartamento ou casa e com certeza não vai ter carpete pelo menos fora dos quartos.
      x

  • kel

    O seu trabalho aumentou, você tentou conciliar e percebeu que não conseguiu, percebeu que o E. é prioridade na sua vida. Que você consigar dá esse tempo só a ele, acho lindo quando ele tenta te acalmar dizendo que está tudo bem 🙂

    • Nivea Sorensen

      Ele é uma graça, Kel, mas não merece e não deveria ter que passar por isso com frequência

  • Bibi

    Que lindo, Nívea. ele é tão carinhoso!
    Embora a gente precise “surtar” pra ver certas coisas, a gente vê…
    Eu trabalho fora, das 8 da manhã as 7 da noite, fico muito pouco com minha Nina, mas em casa, tento chegar e me organizar rapidinho pra ficar com ela, brincando. O tempo tá passando tão rápido, ela cresce rápido… e nem vejo.
    E temos essa mania de achar que temos que dar conta de tudo… mas é difícil. Difícil não surtar!

    • Nivea Sorensen

      Bibi, tenho a impressão de que é um pouco mais fácil quando a gente não passa o dia todo com eles. Chegar em casa e dar atenção é mais fácil porque a gente tem saudades. Difícil é passar 12 horas com eles e ainda ter pique para brincar a noite. Eu percebo isso quando ele vai a creche na sexta. Eu vou buscá-lo louca para vê-lo e brincar com ele (apesar do cansaço porque eu normalmente uso esse dia para trabalhar). x

  • Priscila

    Nossa Nivs fiquei emocionada!!! Que bom que vc conseguiu consertar isso a tempo e que vcs estão feliZes!!! Beijos

    • Nivea Sorensen

      Estamos no caminho, Pri. Pelo menos estamos indo melhor do que estávamos x

  • Cintia

    Oi Nivea, me emocionei aqui e me identifiquei muito. Não conseguimos dar conta de tudo mesmo, mas nossos filhos serão sempre prioridade.
    A atitude do Erik foi tão carinhosa, meigo demais.
    Grande beijo pra vc!

  • Juliana

    Nossa Nívea, chorei com este relato, a gente se identifica muito lendo os outros, é difícil conciliar tudo, atenção ao filho sempre, as encomendas e a casa limpa… E a mãe fica aonde nisso tudo né? Temos que estar sempre rebolando pra dar conta de tudo, e não surtar! Eu sinto falta de um momento só pra mim aqui em casa com dois, adoraria ter UM dia inteiro pra mim nem que fosse para fazer a faxina da casa sem interrupções…que bom que sabemos que deu tudo certo, curiosa para saber como vc fez! Lindo lindo seu pequeno indo te consolar, não tem coisa mais fofa e doce que isso…

    • Nivea Sorensen

      Juliana, estamos nos adaptando aqui. Ele está muito mais feliz, eu continuo muito cansada por conta de passar o tempo todo com ele e não ter nem um minuto durante o dia para respirar em paz. x

  • Ma

    Conciliar trabalho em casa com cça não é fácil, tb tenho que rebolar nas traduções. No começo tb queria pegar todos os projetos que apareciam e ficava muito estressada com os prazos, e aqui ainda tenho que apartar a briga das duas. Sabe o que deu certo pra mim? Aprendi a dizer não e só aceito aquilo que tenho certeza que vou darconta sem me descabelar. E qd a Laura engrenar no Kindergarten eu pego mais trabalho. Bj

  • Luciana

    Nivea

    sei exatamente o que voce descreveu e as sensacoes que voce passou (ou ainda esta passando). Eu amo meus bolos. Me satisfaco quando a cliente liga dizendo que estava maravilhoso. Eu sei que os meus cupcakes sao os melhores de Viena (sem modestia porque é o que todos dizem). Eu amo cozinhar. Mas eu amo mais a minha familia. Percebi que as encomendas de fim de semana nao só me faziam trabalhar nos dias que o meu marido nao trabalha, mas como atrapalha a dinamica da familia. E eu nao quero isso. Por isso diminui consideravelmente a minha producao e com muita dó no coracao hoje digo muitos naos a quem procura os meus bolos. Estou certa? Talvez nao e talvez me arrependa daqui a algum tempo, mas sinto que a minha familia precisa nesse momento da minha presenca integral especialmente nos horarios onde estamos todos juntos. Isso é essencial para nós e disse eu nao abro mao. As vezes essas decisoes sao necessarias e nem por isso deixam de ser doloridas. Tao doloridas quanto quem trabalha formalmente e tem um chefe para responder. Só é mais facil dizer o nao.

    Espero que voce esteja conseguindo dar conta dos afazeres domesticos, maternais e da vida de empresaria. E te parabenizo por tudo. Sinceramente!

    beijos no coracao…..

    Lu

    • Nivea Sorensen

      Lu,
      Bem isso mesmo, né? Eu adoro também, faço mais pela satisfação e o bem estar que me propociona do que pelo dinheiro, mas tem atrapalhado as coisas por aqui. Também tenho essa sensação de que estou sempre trabalhando enquanto meu marido tem que dar conta de tudo sozinho nos finais de semana.

  • Agora Somos Três

    Também trabalho em casa e sei que não é facil.
    Quando tenho encomendas e a pequena por algum motivo não pode ir para a creche, é quase impossível dar atenção para ela. Ja queimei muitos brigadeiros, e ja deixei muitos passar do ponto.
    Ja gritei, ja chorei e no final do dia me sentia pessima.
    O bom disso tudo é que aprendemos com os nossos “erros”. Né?!
    A mãe que nunca gritou, se estressou… Que atire a primeira pedra!

  • Tati

    Quanta sinceridade, me fez até chorar!!! Depois da maternidade parei de trabalhar por um tempo p me dedicar a minha filha, agora que essas “férias” vão terminar a única certeza que tenho é que não quero um trabalho que me faça levar estress para casa. No meu antigo emprego arrisquei meu casamento por não saber gerenciar minhas emoções. Não posso fazer isso c minha filha! Minha prioridade/sonho de ser bem-sucedida evaporou, só quero agora um trabalho que pague as contas e não consuma a minha saúde!
    To adorando o blog!

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