Pretensões e Desabafos

Maria falando de João

Voltando do Brasil, mais especificamente no vôo São Paulo/Amsterdã, sentamos ao lado de uma moça que viajava sozinha com um bebê, praticamente recém-nascido.

E aí eu, que sofro de uma curiosidade quase mórbida sobre todas as coisas dessa vida, olhei para ela rapidamente tentando adivinhar os quê e porquês da moça (onde morava, para onde estava indo, se iria encontrar o pai da criança e etc). Faço sempre isso mentalmente, ao passar por uma janela de escritório, ao ver as pessoas no supermercado, no ônibus. Sempre me pergunto de onde vêm, para onde vão, se são felizes.

A tal da moça era jovem, de cabelo muito comprido. Parecia ter se esforçado para estar bem vestida, ou melhor, notava-se que ela tinha se arrumado para a viagem (logo no inicio já conclui que era a primeira viagem de avião), aposto que usou suas melhores roupas. Usava uma sandália com estampa de oncinha e salto altíssimo, calça branca bem justa e blusa também de oncinha (que não combinava, nem descombinava, com a sandália). Achei de mau-gosto a combinação, além de parecer bem vagabunda, opinião de quem não entende nada de moda, nem se interessa muito pelo assunto. Pensei comigo que para quê viajar de salto tão alto? Ainda mais quando você viaja com criança. Não seria melhor estar confortável? E calça branca? Na minha cabeça calça branca e maternidade não ornam. E depois tinha a menina, a bebê, também usando um macação com pezinhos de oncinha e toda trabalhada no rosa. Tudo era rosa, a mantinha, a mala, a chupeta, a mamadeira.

Pensei em virar para o I., sentado do meu outro lado e comentar que acho muito brega a pessoa se arrumar para viajar de avião, ou que odeio menina toda vestida de rosa. Pensei e parei no meio do caminho. Pensei e me perguntei para quê? Para quê dizer aquilo? O que eu vou dizer faria bem para ela? Ou para mim? Ou para o meu marido que iria ouvir a estória?

Percebi que em 3 minutos tinha julgado a moça. Ou melhor, pré-julgado, e senti vergonha. Fiquei quieta.

Desde então tenho pensado muito à respeito. Lembrei de um ditado que diz que “o que Maria fala de João diz mais sobre Maria do que sobre João”. E adotei a máxima de que se não tenho nada bom, construtivo ou inteligente para dizer, fico quieta.

A não ser que a pessoa se vista inteira de onça cor-de-rosa, né? Aí ela pede para eu falar dela, só pode…

N.

18 Comments

38 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

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May 23, 2013
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18 Comments

  • ms. cherry

    Sem muitos comentários a nao ser a seguinte:

    ADOTAREI PARA MIM A MÁXIMA DE MARIA

    beijo

  • Dani Rabelo

    Sabe, Ni, eu penso muito nisso – o julgamento – e não sobre as roupas de oncinha com rosa….
    Tenho avaliado muito, muito, muito os meus julgamentos e cheguei à conclusão que julgo mesmo. Normal. Todo mundo julga. Normal.
    O que não posso (eu, particularmente, com a minha filosofia de vida e ensino à minha filha) é sair difamando os outros ou comentando horrores da vida alheia a respeito do meu julgamento – nada contra o teu texto, não é isso. No exemplo, o que eu acharia errado seria vc passar o vôo apontando a pessoa e olhando e apontando para o I. e olhando… isso eu não acharia certo e tentaria não ter este tipo de atitude, caso fosse eu no seu lugar, mas eu não sei que conseguiria tbm….

    Eu tento. Tento. Tento.

    mas julgo.

    E adorei a frase sobre a maria e o joão (call me dumb, nunca tinha ouvido falar)!

    Adorei.

    É isso mesmo.

    Peço para que Deus (universo, buda, alá, qlq coisa) perdoe os meus maus julgamentos e, diariamente, tento pensar no caminho inverso (o que fez esta mãe fazer isso? o que fez essa pessoa se vestir assim? pq ela está de short mostrando a bunda se está um putz frio??), mas nem sempre consigo.

    Beijos!

    • Nivea Sorensen

      Eu continuo julgando, Dani, mas decidi que não falar é o primeiro passo. Vou ficar espalhando para que? x

  • Luciana

    Hahaha… eu tbem curto inventar historinhas, tentar achar fatos e razoes.. hehe. Mas nunca chego a comentar, pq ninguem acompanha meu raciocinio doido…

    Mas ca, pra nos, sandalia no aviao?? E o frio nos pes??

    (sem falar na oncinha!)…

    hehehe
    Beijo

  • Celi

    Acho que é natural de mulher, né!? Todo mundo olha, pensa e faz um pré julgamento. Temos que tomar cuidado para ser discreta. Né!? Também faço isso e às vezes comento com meu marido. Logo ele vem sempre com o outro lado da moeda, fazendo com que eu pense no inverso…. olhe para a situação de outra maneira. Está certíssimo!
    Agora, amei essa frase! Ficará guardada pra sempre na minha memória. Muito bom!
    Engraçado como temos visões diferentes… as pessoas tem pensamentos diversos e atitudes também. Eu também jamais usaria uma calça branca com criança pequena. Adoro, mas com eles não dá! 🙂 Penso que tudo tem sua fase!
    Beijos

  • Liza

    Eu adotei já a muito tempo e faz um bem, já dizia Freud: O homem é dono do que cala e escravo do que fala. Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo.

    Beiinhos

  • katia

    adorei o ditado.. a mais pura verdade verdadeira…
    vou “passa-lo” a meus conhecidos tb… tomando o cuidado de deixar o “copyright” a seu mérito… rs rs

  • Mariana Spil

    Gostei do ditado. É mesmo! Eu também gosto muito de imaginar assim a vida das pessoas. Acho que deve ser hábito de quem lê bastante. Quem sabe?
    Pode parecer mórbido, mas sempre faço isso quando por alguma razão vou a algum cemitério. Vejo o nome, a data de nascimento e de falecimento, calculo a idade da pessoa, penso se teria parentes (cemitérios antigos, bem antigos como os que tinha nos EUA são melhores pois tem muitos mais dados e até trechos de histórias das pessoas). Enfim!
    Acho que o observar e tentar imaginar a história da pessoa também pressupõe um pouco de preconceito. Claro, o que fazemos com esse preconceito são outros quinhentos, mas para fazer esse “jogo” precisamos ter um olhar crítico, e um olhar crítico carrega nossos próprios preconceitos… é normal, não somos máquinas não é mesmo?

    • Nivea Sorensen

      Mariana, eu concordo com tudo mas queria evitar ficar falando dos outros sabe? Acho diferente de olhar, imaginar, claro sempre com pre-conceito porque como você disse, eles vêm sempre com a gente.
      x

  • Fernanda

    “E aí eu, que sofro de uma curiosidade quase mórbida sobre todas as coisas dessa vida..” [2]

  • Bruna Dalfré

    Ai Nívea acho que isso é natureza feminina…..temos que tomar cuidado!Eu também vejo cada coisa e fico calada!
    Mas cá entre nós, salto?No avião?Com bebe?Sei la neh…rs
    Bjosss

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