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Pretensões e Desabafos

Essa mãe

Erik sempre foi uma criança diferente e sempre imaginamos que ele poderia ter um Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (o tal TDAH).

Conforme ele foi crescendo, e as exigências escolares aumentando, essa desconfiança foi confirmada, assim como outros diagnósticos que surgiram nos últimos dois anos: Dispraxia, Transtorno de Processamento Sensorial e Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Tudo isso teve um impacto ENORME nas nossas vidas e em mim especialmente. O meu dia-a-dia, minha auto-estima, minha saúde mental, minha rotina de auto-cuidado (já que eu também convivo com um recém diagnosticado Transtorno Bipolar), todo meu mundo virou de pernas para o ar.

Tudo o que eu sabia sobre como maternar desmoronou. Minha confiança no que eu acreditava fazer tão bem foi abalada.

Perdi a vontade de escrever. Sobre esse ou qualquer outro assunto. Não por medo da exposição ou do julgamento, mas por receio de não ser compreendida. Talvez porque antes dele eu também não compreenderia.

Deixei de dar as caras no Instagram porque não há um dia em que eu não tenha uma reclamação ou não aparente estar morta de cansaço ou com cara de choro. Falta tempo. Falta energia. Sobram afazeres.

Ao deixar de escrever, ao deixar de me fazer vista, me deixei isolar ainda mais.

Hoje temo ser tomada por frustração, exaustão e pelas dificuldades do dia-a-dia que são tantas e tão brutas que eu não sei se consigo compartilhar aqui sem parecer que me faço de vitima (porque se você olhar para o meu filho não vai conseguir ver nem 1% de como são as dificuldades que a gente enfrenta).

Mas eu preciso tentar, porque escrevendo eu me encontro e encontro sentindo no mundo ao meu redor.

Porque agora, agora a sensação é de subir numa montanha-russa todas as manhãs e esperar para poder descer tarde da noite, exausta de sono e sem ânimo para mais nada.

E tudo que eu quero, o dia todo, é só voltar ao chão.

No chão onde meu filho era na maior parte do tempo uma criança adorável e eu não era essa mãe.

Essa mãe que anda olhando todas as outras e se perguntando se elas a julgam (até pouco tempo atrás acreditava-se que o autismo era causado pela frieza da mãe com relação à criança).

Essa mãe que recebe e-mails ou telefonemas da escola a cada dois dias para ouvir sobre o problema da vez, para sugerir soluções ou explicações que ela não tem.

Essa mãe que leva e participa da terapia x, da terapia y, das consultas com o médico, das reuniões com professores, com professores assistentes, com a diretora. A mãe que tem a agenda mais cheia do que a executiva apesar de “não trabalhar”.

Essa mãe que já fez dezenas de cursos, assistiu palestras, leu centenas de livros e que ainda não sabe o suficiente para fazer a vida do filho mais tolerável.

Essa mãe que antecipa o problema e corre atrás da solução. Que faz planilha, chart, imprime, plastifica, pesquisa, que muda a iluminação do quarto, o almoço na lancheira, a costura da meia, que compra óculos escuros para o carro, protetor de ouvido para locais públicos e o que mais ela achar que pode resultar no bem-estar dele. E que apesar de tudo isso, ouve gritos da criança que reclama não ser compreendida ou amada.

Essa mãe que vê que o filho sofre e que trocaria de lugar com ele.

Essa mãe que ouve que ele preferia estar morto, ou que não presta para nada, apesar de ter passado os últimos dez anos fazendo de tudo para que ele soubesse que ele é o mundo dela, que é importante e amado.

Essa mãe que precisa de mil estratégias todos os dias para que o filho escove os dentes, ponha os óculos, faça a lição, entre no carro.

Essa mãe que chora todos os dias quando o filho transforma a coisa mais simples numa tarefa monstruosa pela trigésima vez. E que chora de noite por medo do mundo ser muito cruel com ele.

Essa mãe que se sente terrivelmente sozinha, apesar de saber que existem tantas como ela.

Mas eu sou também essa mãe que não se deixa derrubar e que segue nesse caminho com ele, não por opção mas por necessidade e por amor.

No fundo eu sou igual a quase todas as outras.

Mãe.

N.

About Author

42 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

14 Comments

  • Catherine
    November 22, 2020 at 8:37 pm

    Nivea, um abraço pra vc. A vida de mãe não é fácil (todas lutam uma batalha invisível), e eu nem consigo imaginar todas as suas lutas diárias.

    O que posso dizer é que vc faz um trabalho incrível. Ele tem sorte de tê-la como mãe ❤️

    Reply
  • Fran
    November 22, 2020 at 8:54 pm

    Nivea, que relato forte, senti muito todas as suas palavras! Você é um exemplo de força e sinceridade, um exemplo do que é amor incondicional aos filhos.
    um abraço enorme, estamos sempre na torcida

    Reply
  • Mariana
    November 22, 2020 at 9:41 pm

    Abraços apertados, carinhosos e acolhedores em vocês. Não sei se conta, mas, ainda que virtualmente tem gente que gosta, acompanha e torce por vocês, como se fosse da família.
    Afeto e admiração!

    Reply
  • Viviane
    November 22, 2020 at 9:42 pm

    Abraço apertado, com um mundo de afeto para vc e para o Erik.
    Não nos conhecemos pessoalmente (apesar de me sentir meio íntima e tia das crianças em razão do tempo que te acompanho) e o que penso não muda nada seus dias, mas quero muito te dizer que vc me inspira e que suas dúvidas e lutas geram um aprendizado infinito do lado de cá.
    Vcs são muito amados, admirados e queridos.
    Fiquem bem!

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  • Fabiana
    November 22, 2020 at 10:31 pm

    Difícil é, mas não desistimos nunca!!

    Aqui tenho um praticamente idade do Erick ( o meu tem nove), há dois foi diagnosticado com TDAH, mas venho desconfiando de mais coisas.. não tive forças ainda para ir atrás de mais diagnósticos..
    Esse ano de pandemia, de aulas online ( olha que a escola dele é light.. 1:20h de aula por dia) sem as terapias necessárias que foram interrompidas por causa da pandemia.. olha não está fácil..
    hoje por exemplo estou o dia inteiro com ele e atrás dele para terminar uma tarefa de trabalhos manuais que já está hiper atrasada.. e até agora nem chegou na metade da metade..
    mas como vc falou, não desistimos, estamos aí para o que der e vier!!
    Força!! Meu mantra todos os dias!!! 😘

    Força para nós!!

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  • Dayse
    November 23, 2020 at 4:09 am

    Sinta-se abraçada por mim, Nivea. Desejo dias mais leves ❤️

    Reply
  • Jamile
    November 23, 2020 at 10:10 am

    Nivea, vc é incrível. Eu te admiro muito. Receba meu carinho e um abraço apertado <3

    Reply
  • Silvia G.
    November 23, 2020 at 5:36 pm

    Força Nivea!
    Um abraço apertado x

    Reply
  • Andreia
    November 24, 2020 at 2:42 pm

    Mais uma batalha a ser vivida, Ni. Segura as pontas. Vc vai se sair bem nessa tbm ❤

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  • Liza
    November 25, 2020 at 10:24 pm

    Você é a melhor mãe que o Erik poderia ter Nivea!
    Um abrando bem forte xx

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  • Elis Feldman
    December 2, 2020 at 1:04 pm

    Nivea, sinta meu abraço apertado!
    Você já lei Longe da Árvore, do Andrew Solomon? Acho que é um livro fantástico para que mães e pais se sintam parte desse grupo maior de pessoas que amam e cuidam de filhos com questões desafiadoras. Vale a pena!
    Beijos querida

    Reply
  • Leila Chacon
    December 9, 2020 at 4:10 pm

    Tenho uma enorme admiração por vc e tenho certeza que vc com sua fortaleza e coragem tornou-se fonte de inspiração para muitas outras mães. Vc é a melhor mãe que o Erik poderia ter e um dia vai ouvir isso dele como reconhecimento de todo esse amor e dedicação. Fique bem, estou torcendo por vcs.

    Reply
  • Diana
    December 16, 2020 at 12:46 am

    Que texto bonito e tocante…eu acompanho você há anos e, como também portadora de uma doença mental, entendo bastante do que você expõe aqui. Diversas vezes seus textos foram um alento para mim. Sei da sua força e só te desejo cada vez mais momentos bons, para reabastecer as energias. Um grande beijo.

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  • Tamiris martins
    March 6, 2021 at 10:20 pm

    Passei pra deixar um abraço e toda a mh admiração.

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