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Pretensões e Desabafos

O dia da minha mãe

Domingo foi dia das mães. De todas elas.

E se todas as mães merecem muito mais do que um dia para serem celebradas, a minha merece toda uma vida. Tá bom, eu sei que a sua mãe também é linda, forte e a mulher mais incrível do mundo. Eu sei que ela também fez sacrifícios por você, que deixava (e que ainda deixa, né?) você se servir primeiro, que passou noites em claro e chorou nas festinhas da escola. Mãe é mesmo tudo igual.

Só que a minha, além de tudo isso, é feita de outra matéria. Minha mãe sempre tirou e tira força sabe-se-lá de onde para seguir em frente. Foi ela quem me ensinou a maior lição de todas, a que no dia seguinte a gente levanta e recomeça. Quantas vezes for preciso. Desculpa é coisa para quem pode, quem precisa faz acontecer.

Ela que deixou a escola, ainda criança, para trabalhar numa fábrica de tijolos e que deixou a casa da mãe, ainda menina, para cuidar da casa dos outros na cidade grande.

Morou num quarto onde só cabia uma cama, nos fundos da casa dos patrões e de lá só saiu casada, comigo na barriga, para sua primeira casa, que só tinha um quarto, uma cozinha e um banheiro do lado de fora.

Nunca parou de trabalhar. Trabalhou grávida e não teve nem licença maternidade. Me levava ainda bebê junto com ela para o trabalho. E ali eu cresci, cuidada pelos patrões enquanto ela limpava o chão. Fez o mesmo com a minha irmã. A jornada dupla mais ingrata que eu conheço. Se trabalhar fora e cuidar da casa e dos filhos já é difícil, imagina só um trabalho sem nenhum reconhecimento. Quem cuida da casa sabe muito bem disso. É um trabalho que nunca termina e que se bem feito ninguém repara. O dela era duplo, na casa alheia e na casa dela. Sem sábados, sem férias, trabalhando em todos os domingos de páscoa e vésperas de Natal.

Casou para não ser mãe solteira mas criou os filhos praticamente sozinha. Meu pai, sempre ali, mas nunca muito presente ou ativo. Ajudava com as contas, mas era só isso. Ele fez o que podia fazer, não o culpo. E o amo. Mas perto da minha mãe…

Nunca parou de trabalhar. E isso não é modo de dizer. Lá está ela hoje, na mesma casa de 40 e tantos anos atrás, os mesmos patrões. Quase 70 anos nas costas, joelhos operados, dores nas pernas e muitas dificuldades até para caminhar. Mas ela está lá, todos os dias, todos os domingos de Páscoa, todas as vésperas de Natal. Por que? Porque ela não sabe fazer outra coisa, porque ela não conheceu outra vida, porque ela não sabe o que é não trabalhar. A essa altura também o que é trabalho, o que é família, o que é descanso, o que é tarefa e o que é companhia para as horas de solidão já está de tal maneira misturado que nem se vê o que é uma coisa e o que é outra.

Todo dinheiro ganho era gasto com a gente. Todo o esforço era para que a gente pudesse estudar e só estudar.

Minha mãe, como a sua e como todas as outras, sentiu muita culpa. Culpa por trabalhar e não ter conseguido dar atenção em tempo integral para as filhas. Na minha cabeça, e no meu coração, essa culpa nunca fez o menor sentido. Ela não fez o seu melhor, ela fez mais do que isso, ela fez o que tinha que ser feito – um esforço sem tamanho para que a gente tivesse tudo que ela não teve.

Até ter meus próprios filhos eu achava que todo o sacrifício e todo o esforço dela eram muito doídos. Hoje eu vejo que comparado ao amor que ela sentia, isso era nada. Ela faria de novo. Ela faria igual. Ela faria infinitamente se precisasse. Sem arrependimentos.

Graças a ela eu estou aqui. Eu estou de pé, estou viva e sou quem eu sou. E sou feliz.

Nesse dia das mães que passou eu poderia ter agradecido a minha mãe por tudo isso. Mas no fundo eu agradeci mesmo foram os meus filhos que nasceram para me fazer entender finalmente o sentido dessa entrega.

E além de agradecer, eu pedi. Pedi que um dia meus filhos aprendam comigo o que nessa vida ela me ensinou. E pedi mais, pedi que eles sintam por mim pelo menos uma parte do orgulho que eu sinto por ela. Mas também lamentei, lamentei a distância que impede que eles a conheçam como avó.

Mãe, se todas fossem no mundo iguais a você….

N.

About Author

39 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

16 Comments

  • Cintia Romano
    May 12, 2015 at 5:33 pm

    Posso confessar que chorei horrores? Lembra muito a minha mãe!

    Reply
  • Bibi
    May 12, 2015 at 7:02 pm

    Que lindo, Nívea. Realmente, quando nos tornamos mãe entendemos a entrega e doação das nossas mães. E entendemos que TUDO foi feito com tanto amor e que quando se tem amor envolvido, nada é sacrifício. Fariam muito mais. Assim como nós fazemos.
    Linda a história da tua mãe!

    Reply
  • Daniela
    May 12, 2015 at 8:18 pm

    Nivea, quanta honra a tua mãe! Muito lindas as tuas palavras.
    bjs
    Dani

    Reply
  • Paula
    May 13, 2015 at 2:00 am

    Nossa! Que lindo texto! Sua mãe certamente deve olhar pra vc e pensar que valeu à pena todo sacrifício! Leio seu blog sempre, nunca comentei, mas hj não poderia deixar de dizer que me emocionei! Muito! Bj

    Reply
  • Nivea Sorensen
    May 13, 2015 at 7:23 am

    Obrigada, Paula x

    Reply
  • Didi
    May 13, 2015 at 3:02 pm

    Chorei. Senti. Doeu.

    Reply
  • Luciana - Canada
    May 14, 2015 at 4:57 pm

    Ai, eu ando tao enrolada… mas tenho acompanhado vc sempre! Erik lindo, pintinha linda, vc emagrecendo e agora essa super homenagem a tua mae!! Lindo Nivs, lindo… e tenho certeza de que ela morre de orgulho de vc, da mulher forte e fragil que vc eh, da super mae, da tua historia, de tudo tudo.
    Um super beijo!
    Lu

    Reply
  • Nivea Sorensen
    May 18, 2015 at 4:21 pm

    Obrigada, Lu x

    Reply
  • Carolina
    May 14, 2017 at 3:14 pm

    Chorei horrores, claro!
    Feliz dia das mães, Nivea! Pra vc e pra sua mãe, ?

    Reply
  • Vanilde
    May 14, 2017 at 3:44 pm

    Olá, leio sempre seu blog. Emocionada, lembrou minha mãe que já não esta mais aqui. Feliz dia das mães!

    Reply
  • Izabel
    May 14, 2017 at 4:11 pm

    Lindo relato!
    Com certeza a gente só consegue entender todo sacrifício e entrega de uma mãe quando também nos tornamos mãe!
    Feliz dia das mães!
    Beijinhos

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  • Jamile
    May 15, 2017 at 2:53 pm

    Eu deixei este post aberto e acabei de ler no trabalho, foi um esforço danado pra nao chorar, ainda mais que ando meio chorona, rs. Já te agradeci e agradeço por você sempre escrever sobre suas dores e a sua superação; me ajudam muito… Gratidão

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