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maternidade

Ciranda

É preciso uma vila para se educar uma criança.

Quando eu me tornei mãe pela primeira vez, praticamente há 10 anos atrás, eu tinha uma única amiga que já era mãe.

Olhando para trás, hoje eu diria que era uma amizade bastante tóxica. Me trazia um mal-estar e um gosto amargo na boca que eu não sabia identificar. Me deixava sempre exausta e eu não sabia o porquê. Talvez porque eu não sabia olhar para mim. Coisa de energia mesmo. Algumas pessoas até tentaram me alertar mas eu acreditava que o que ela me trazia de positivo compensava o restante.

Quando eu digo tóxica eu quero dizer que era uma pessoa que nunca se mostrou por inteira ou se disponibilizou inteira para mim, como eu sempre fiz e faço. As vulnerabilidades dela estavam todas lá, assim como as minhas. Mas as dela sempre enterradas numa imagem criada e mantida com muito cuidado; a minha transbordando. E por conta disso, eu tinha uma imagem bastante distorcida da mãe que ela era.

Veja bem, a mãe que ela era não é, e nunca foi, da minha conta. Meu objetivo aqui não é falar sobre ninguém, nem sobre o maternar de ninguém, além do meu, além de mim. Esse é um olhar para mim. Até porque não resta mesmo nenhuma mágoa.

Acontece que às vezes, para nos vermos nós precisamos ver também o outro, e principalmente nos ver em relação ao outro. Então tudo isso precisava ser dito para que eu pudesse explicar que aquela imagem de mãe muito inteira para quem tudo era muito fácil, muito simples, muito indolor, era a imagem que eu acreditava que precisava replicar. Aquele era um espelho pelo qual eu não me via refletida mas achava que deveria. E isso me isolava numa maternidade que eu acreditava ser falha.

Mas o problema não era eu. Era o espelho.

A maternidade para mim nunca foi um instinto. Eu não nasci mãe naquele 13 de Abril em que meu primeiro filho nasceu. Eu me construi mãe. E para me construir eu precisei demolir muitos pilares, arrancar muita erva daninha, carregar tijolos e levantar aos poucos uma nova estrutura. Foi como se aquela criança tivesse sido tirada da minha costela (talvez nunca tenha sido uma mulher feita da costela de um homem, mas o inverso). Ali ficou um vazio enorme. O vazio do que eu era antes de ter me dividido com aquela criança. Nada disso foi indolor, ainda que tenha valido cada segundo.

Sabe por quê? Por que nunca é. Acreditar que isso é um instinto e é SÓ felicidade, amor maior do mundo, nos causa só inadequação e dor. Nos faz infelizes e serve um propósito patriarcal e capitalista que não caberia ser discutido agora. Não nesse tempo e lugar. Maternar é sim um ato politico.

Me fez muita falta naqueles primeiros anos de maternidade o contato com uma mãe de verdade, com mães de verdade, que me dissessem que não tinha nada de errado com a inadequação que eu sentia. Que eu ia me encontrar naqueles escombros e de novo me fazer inteira. Mães que precisavam também cuidar das suas feridas e tê-las cuidadas, grandes ou pequenas, tenham elas sido causadas por uma cesárea de emergência, a saudade do primeiro filho, um parto violento, a solidão, o luto da vida pré-maternidade, o puerpério, os peitos sangrando, a pega errada, o não querer amamentar ou o querer e não conseguir, a cobrança por querer voltar ao trabalho, o julgamento por voltar tão cedo, as noites em claro. TUDO desde o momento que aquele ser nasce, causa um certo nível de dor e de desconforto.

Me fez falta segurar as mãos de uma outra mãe e caminhar ao lado dela. De encontrar outras, também de mãos dadas, e formar com elas uma ciranda. Fazer do abismo uma ponte. Maternar também é construir.

Faltou alguém me dizer que era doido mesmo. Que a gente ama sempre os filhos mas nem sempre gosta de ser mãe.

Porque só quando eu aceitei que era dor, e que não era só minha, ela deixou de doer.

E foi aí que virei mãe.

N.

About Author

42 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

5 Comments

  • Não importa
    March 23, 2021 at 5:19 pm

    Tão óbvio que você se refere à Karine neste texto 😒 quem vê pensa que vc é uma mãe melhor que ela 😴

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    • Nivea Sorensen
      March 23, 2021 at 5:41 pm

      Pelo jeito importa pra você que se deu ao trabalho de criar email anônimo. O que não me imnporta é a opinião de quem não tem coragem de assinar o que diz. Análise ajuda com esses issues aí, recomendo. Eu sou uma mãe fantástica, e só basta que meus filhos saibam disso. Eles sabem, viu?

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  • Netania
    March 23, 2021 at 8:44 pm

    Que sorte a minha, que se um dia for mãe, terei amigas que já são mães incríveis como você e que refletem tanto a realidade materna.
    Obrigada por ser tão transparente!

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  • Renata
    April 10, 2021 at 10:31 pm

    Um texto muito real e honesto… imagino a quem voce tenha se referido apesar de não conhecer vocês
    Acompanho as 2 há anos
    Nunca comentei, mas achei importante dar esse feedback até mesmo por alguns comentários desnecessários.
    Gosto da sua humildade em compartilhar a dor, a imperfeição, a construção diária da maternidade e a luta com questões de saúde mental. É fácil se identificar com seus textos, o que mais tem ali é o que nos torna humanas. Sem máscaras, sem filtros, com tropeços e acertos . A realidade nua e crua. Cada um com seus recursos internos para lidar com a vida, mas é bonito de ver a sua trajetória em olhar pra dor, reconhecê-la e aprender a lidar com ela sem precisar vestir uma suposta imagem ( frágil e clichê ) de autossuficiência. Até porque, é na relação com o outro que a gente se constrói, se reconhece e se estranha. Conhecer a sua própria dor e fragilidade é o que te faz ser essa mulher tão forte. Não é todo mundo que está disposto a olhar pra si e encarar suas sombras . Pelo que acompanho de você, você é esse tipo de pessoa, acredito que a terapia contribua muito pra isso.
    Não compro frases feitas, nem discursos rasos que tamponam furos e falta inerentes à todo ser humano
    Cada um no seu tempo e com as defesas que consegue
    Desejo tudo de bom pra você e seus filhotes!
    Continue com seus textos que nos acolhem tão bem.

    Reply
  • Cláudia
    April 30, 2021 at 12:08 pm

    Oi Nivea,
    Foi você quem me mostrou desde sempre a maternidade real, como ela é: dura e crua. Educar meu filho tem sido mais fácil te acompanhando por aqui. Obrigada pro tanto! Um abraço.

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