Menu
Pretensões e Desabafos

Pequenos não acontecimentos e pensamentos pandêmicos

Não sei na sua casa, mas na  minha as coisas todas estão de pernas pro ar.

Acho até que não tem como ser de outro jeito nesse período de incertezas e de isolamento social. Bastante óbvio que uma pandemia afete a vida de todo mundo, em maior ou menor grau, mas quase sempre para pior.

O isolamento em si até que não me incomoda. Pelo contrário. Sou introvertida, hiper-sensível, e muita interação acaba me deixando esgotada. Além disso eu gosto de ficar em casa, gosto de coisas que a gente faz quando está em casa: ler, assistir TV, estudar, meditar, tomar banho de banheira, ficar em silêncio. Não tenho medo dos meus pensamentos e sentimentos, gosto da minha própria companhia e sou assim desde criança.

O que eu tenho mesmo sentido muito é justamente o fato de NUNCA estar sozinha em casa, já que as escolas estão fechadas e as crianças estão comigo 100% do tempo. Olha, ser mãe é foda. Ser mãe durante uma pandemia sem poder contar nem com aqueles 10 minutos no carro para colocar os pensamentos em ordem e tomar um fôlego, vou te contar…

Fui obrigada, claro, a assumir aí todo o esquema de ensino a distância, o que envolve organizar uma agenda cheia de ligações de video no zoom para três crianças diferentes (e que exigem a minha presença), as atividades que cada um vai fazer e os horários que tem que ser diferentes, já que por conta das necessidades especias do Erik ele não consegue trabalhar no mesmo ambiente que as irmãs. Mesmo assim eu tenho bastante sorte (e meus filhos também) porque eu amo ensinar e sou bastante criativa. Adoro pesquisar, criar e executar as atividade com eles. Ainda assim, conciliar isso com todo o resto tem sido bem cansativo.

Esse periodo até me despertou uma vontade de voltar a lecionar ou trabalhar com educação. Comecei inclusive a levantar a possibilidade de fazer um mestrado em Educação Especial.

Erik no geral tem lidado ok com a pandemia. Ele tem feito pouquíssimas atividades escolares e focamos mais no bem-estar emocional dele. Ele continua fazendo Terapia Ocupacional e Psicoterapia todas as semana. A relação com as irmãs é um dos aspectos mais difíceis aqui em casa e foi elevada à potencia máxima durante a pandemia (eu sei, em qualquer casa com irmãos é assim; agora imagine quando um deles é uma criança autista, super sensível a estímulos externos?). Coisa de deixar qualquer mãe enlouquecida. A gente precisa de muita paciência. O problema é que ela acaba né? E aí onde recarregar?

Elena e Lia estão sentido bastante falta dos amigos e do lado social da escola. Acho que até por isso as duas tem se recusado a dormir sozinhas, então toda noite é um “drama” diferente. Eu não lembro, de fato, a última vez que eu e o Ian dormimos sozinhos na nossa cama uma noite inteira.

Eu passo o dia todo em pé, indo pra baixo e para cim, fazendo mil coisas ao mesmo tempo e me desesperando com as que ficam por fazer e me atormentam. E o estado da minha casa? Imunda. Me recuso a contratar alguém para ajudar justamente para respeitar as regras de isolamento e vou aprendendo a não me importar com o que, no final das contas, não importa mesmo. A terapia ajuda.

No começo desse ano a gente finalmente ia começar a obra no sótão. Erik ia ganhar um quarto sozinho e o Ian um escritório (eles atualmente dividem o mesmo ambiente) e eu ia ganhar minha cozinha de volta sem as milhares de quinquilharias do hobby do Ian (impressoras 3D, miniaturas, tintas e todo o resto). Agora estamos esperando o fim do lockdown e datas disponíveis para contratar os serviços para fazer a obra. A troca do carpete e a pequena redecoração do quarto que as meninas dividem também está só no aguardo para começar.

Eu sofro porque tenho mil planos na cabeça que não podem se concretizar.

No stand-by também está o curso de design de interiores que eu comecei no ano passado na esperança de que as escolas permaneceriam funcionando e eu teria um tempo sozinha de manhã para estudar. Hoje eu tenho até tentado, mas é tanta interrupção, tanta criança dizendo mamãe durante o dia, e tanto cansaço no final dele, que eu continuo presa no primeiro assignment.

Ian continua trabalhando muitas horas, mas como trabalha para si mesmo e de casa, tem um pouco mais de flexibilidade e também assume muitas das tarefas com a casa e a crianças. Estamos os dois cansados e sobrecarregados mas poderia ser muito pior se ele não tivesse trabalho.

Sinto falta da minha mãe, da minha irmã e do sobrinho que eu ainda nem conheci, mas no geral não sinto saudades do Brasil o que diminui os efeitos negativos de não poder viajar nesse momento.

Perdemos as férias. No ano passado tínhamos tudo acertado para passar o verão na região da Normandia, na França, bem no aniversário de 75 anos do Dia D (o dia em que as tropas aliadas invadem a França marcando o início da derrota Nazista), um sonho para quem é da História como eu. Mas ok, a Normandia ainda vai estar lá no final dessa pandemia.

Retomei recentemente a pratica de atividade física com personal trainer. Me fez muito bem no ano passado mas esse ano eu estava tendo muitas dificuldades para conciliar com todo o resto. No entanto, percebi que minha saúde mental, que já não é lá essas coisas, não dá conta sem atividade física.

Por falar no assunto, depois de mais de 20 anos convivendo com um diagnóstico de depressão me descobri na verdade portadora de Transtorno Bipolar. De repente tanta coisa fez sentido, sabe? Ag0ra continuo firme na terapia tentando lidar melhor com essas alterações de humor. Minha medicação foi alterada mas ainda não é efetiva (seguimos alterando as dosagem gradativamente) o que significa que eu ainda vivo numa montanha russa. Semanas de mania (marcadas por poucas horas de sono, ataques de ansiedade, raiva, falta de paciência, cérebro acelerado, impulsividade e hiperatividade) seguidas de semanas de depressão (apatia, exaustão, medo, sensação de invalidez e culpa). Mas acredito que com o combo medicação + terapia + meu esforço eu ainda vou encontrar estabilidade.

Entendo que esse seja um período em que invés de reclamar e lamentar a gente pode (quando pode) agradecer pelo que tem dado certo, ou no caso, não foi completamente fodido. Ou pelo menos tentar fazer isso para viver em paz.

Se eu ficar aqui chorando pelo que eu estou deixando de fazer, ou de viver, a vida vai passando. E só tenho essa viu? O dia de hoje, com ou sem uma pandemia eu não vou ter de novo. Nunca mais.

Olha só, isso é diferente de achar que a pandemia tem um lado positivo. Não tem, tem gente morrendo, tem gente sofrendo a morte de familiares e amigos, tem gente sem emprego, tem gente sem perspectiva, e a não ser que você seja meio psicopata ou completamente alienado e egoísta não dá para achar que está tudo bem só porque você continua levando a mesma vida.

Então é uma questão de mudar o pensamento de “vivemos uma pandemia e não deveria ser assim” para “vivemos uma pandemia e o que EU posso fazer com isso?

Eu só posso e sigo fazendo o que dá, da melhor maneira possível.

Que seja breve.

Nivea.

About Author

42 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

2 Comments

  • Mariana
    February 22, 2021 at 5:24 pm

    Um abraço de afeto, acolhimento e gratidão pela partilha. Os desafios para quem sofre de algum transtorno mental são ainda mais potencializados em tempos turbulentos. Viver o possível, a cada dia (muitas vezes, a cada minuto) tem me mantido estável nessa pandemia.
    Muita força, muita coragem e muita serenidade para vocês

    Reply
  • Flávia
    February 22, 2021 at 10:58 pm

    Nívea admiro muito como vc lida com a educação das crianças, com as tarefas da casa, com o caos do dia a dia, e admiro mais ainda vc falar, postar e mostrar como é uma família de verdade, com crianças de verdade e com todos os desafios que acontecem “de verdade”. Sigo sem paciência para mães Youtubers que tem personalidade de monge, que até falam de possíveis dificuldades, mas que editam tanto, tanto os vídeos que o recorte da vida perfeita grita alto. Sabemos que não é assim, mas quando assistirmos esse tipo de conteúdo, parece que estamos sempre errando feio… Enfimmmm, te acompanho desde o tempo do fogo na frauda do Erik, e é muito bom ver que vcs são de verdade, assim como nós somos aqui do outro lado da tela! Um abraço! 🙂

    Reply

Leave a Reply