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maternidade / Pretensões e Desabafos

Filosofando a treta mãe de pet

Em quase 10 anos de maternidade essa é a primeira vez que eu me arrisco na polêmica discussão “mãe de pet é mãe?”.

Aliás, eu nunca tinha nem falado no assunto até o dia das mães do ano passado, quando conversei a esse respeito com duas amigas (que agora acham que essa é uma discussão anual e, certeza, vão passar maio de 2021 me evitando).

O que motivou a conversa na época foi a polêmica, e muito infeliz, campanha publicitária de uma marca x no Instagram que decidiu homenagear as “mães de planta” (você provavelmente se lembra). Na época eu senti que poderia contribuir com a discussão mas não quis comprar essa briga.

No entanto, o que adianta ter um blog e velhas opiniões formadas sobre tudo se não for para por a cara a tapa? Não me venham com aquela conversa fiada de que as pessoas problematizam demais as coisas, porque as coisas estão aí para serem problematizadas mesmo. Porque problematizando, discutindo com respeito, ouvindo o outro, cuspindo para cima e tomando na testa, a gente muda a si mesmo e o mundo ao nosso redor.

Então, antes de mais nada, eu não quero dar nenhum “pitaco” na vida alheia (viu, Mi? – te amo), não quero ditar o titulo que ninguém se dá, não quero monopolizar a maternidade, não quero e nem posso quantificar o amor de ninguém por ser nenhum, animal, vegetal ou humano.

Melhor deixar claro que eu concordo que o amor e o cuidado que se tem por um animal de estimação se compara, sim, ao de um filho. Isso não está em questão.

Eu só gostaria de trazer à tona os motivo pelos quais essa comparação (ou melhor, o uso da palavra “mãe” fora de contexto) com frequência incomoda, invalida e até machuca algumas mães. Não só aquelas que exercem algum tipo de militância ou trabalho de conscientização sobre o que envolve de fato ser mãe, mas as que sofrem com a solidão, com o peso e e principalmente, a invisibilidade.

Não se esqueçam que criar filhos é um ato politico, tem uma função social (portanto que reflete em toda a sociedade) e permite a continuação da nossa espécie.

Quando dizemos que “é preciso uma aldeia para criar uma criança” é porque esse trabalho deveria ser coletivo assim como o resultado dele é.  No entanto, o que vemos são mulheres sobrecarregadas exercendo, se não todas as funções da maternidade (que vão muito, mas muito além do “cuidar e amar”), pelo menos boa parte delas. Muitas vezes elas desistem de outros sonhos ou vivem culpadas por tentar conciliar maternidade com vida pessoal. Toda escolha de uma mulher nesse contexto, seja ela mãe ou não, é uma renúncia.

Isso tudo justificado por um tal “instinto materno” que na verdade não existe. Você não nasce mãe, você se constrói, se forja, deixa de ser o que era, num processo bastante doído na maioria das vezes.

O instinto nada mais é do que um mito (criado pós Segunda Guerra Mundial quando as mulheres precisavam voltar às suas casas e funções após substituir no mercado de trabalho os homens que estavam no campo de batalha). Ou seja, é uma construção social e patriarcal  que permite que homens sigam ignorando suas responsabilidades, que mães vivam culpadas e que as mulheres que não são mães muitas vezes se sintam “incompletas”. Como se todo nosso valor estivesse atrelado ao fato de ter ou não filhos. De novo, toda mulher sofre com isso.

E não deveria. Nenhuma mulher deveria se sentir na obrigação de ser mãe a ponto de ir buscar essa maternidade onde ela nem ao menos existe. Você pode ter uma samambaia, pode cuidar dela com toda sua atenção, pode ter um animal de estimação e amá-lo mais do que tudo no mundo (eu tenho um e sei o quanto esse amor é real), mas isso não faz de você mãe, e tudo bem. Para mim está aí o grande X da questão.

Veja como é cruel essa ideia romantizada da maternidade que faz com que a gente só se sinta completa se exercer esse papel: uma carreira bem-sucedida não vai te bastar, família e amigos não vão te bastar, relações saudáveis e felizes, sejam elas ocasionais ou não, não vão te bastar.

Eu já sei que muita gente vai dizer que não é uma comparação. Acontece que a palavra mãe usada nesse contexto implica sim numa comparação, quer você queira ou não.

Para quem acha que é sobre o uso de uma palavra, eu te convido a pensar comigo sobre a importância de dar nome aos bois e volto 520 anos no tempo, à época do descobrimento do Brasil.

Tenho certeza que você aprendeu nos livros de história que o Brasil foi “descoberto” e você muito provavelmente achou isso bem normal (se nunca parou para pensar talvez ainda ache). Os portugueses estavam ali procurando uma canela pro arroz-doce, quando pá-ora-pois, descobriram ali uma ilha, foram lá, encontraram 1, 2, 3 indiozinhos todos num pequeno bote e todos viveram felizes para sempre.

E se ao invés de descobrimento a gente usar “invasão”? Dá na mesma? Não dá. O que o “descobrimento” tem de acaso a “invasão” tem de violência. Não foi pacífico, não foi justo, não foi idílico.

Pois é, o que a gente conhece como descobrimento foi na verdade uma invasão seguida do massacre de uma população de cerca de 3 milhões de indios, que por terem sido derrotados não escreveram o que a gente lê nos livros de história e que serve,  sempre serve, um propósito. *

E antes que isso vire um blog de história (antes de mãe eu sou historiadora, mas esse não é meu foco neste lugar ), quando você cuida de um animal de estimação o papel que você exerce está muito longe de ser o mesmo que uma mãe.  Ele é cheio de amor e cuidado mas é raso e romantizado, coisas que a maternidade não são.

Uma mãe que questiona o uso do termo pelas “mães de pet” não está deixando de ser empática com outras mulheres, pelo contrário, ela está implorando por empatia, por reflexão, por consciência política e feminista.

Não é sobre ter direito absoluto sobre um título, é sobre tirar desse título o direito de nos oprimir.

 

 

 

* a mesma discussão se aplica quanto ao uso dos termos “revolução x ditadura”, “golpe x impeachment”, para citar outros exemplos.

 

About Author

39 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

2 Comments

  • Tamiris
    June 2, 2020 at 10:36 am

    Concordo fortemente!😜Vc escreve muito bem. Amo ler o q vc escreve❤️ Esses dias me disseram q pode ser mãe de pet pq eles dão trabalho igual criança 😳. Eu disse q realmente queria passar a tarde fora e deixar meu menino sozinho no quintal ou dentro de casa como faço com meus gatos, mas com criança a responsabilidade é outra e o conselho tutelar não deixa kkk (contém ironia -pelamor)

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  • Bárbara
    June 26, 2020 at 12:09 pm

    Pra mim o lance de mãe de pet vem muito da pressão que as mulheres sofrem pra serem mães. Não acho que seja instintivo, e sim uma construção social – desde crianças, pra cuidar de boneca, casinha, etc. Então a gente tá sempre querendo ser “mãe” de alguma coisa, e aí entra o mãe de planta, mãe de pet. Não duvido que as pessoas amem seus bichos de estimação, suas plantas, suas coisas. Mas amar, cuidar, não é ser mãe. Ser mãe, de gente, é outra coisa. Como você disse, enquanto as mulheres sofrerem pressão pra serem mães e depois cuspidas por essa mesma sociedade na hora de querer exercer seu direito como apenas mulher, apenas profissional, não dá pra chamar quem tem bicho de mãe. As palavras pesam, e o peso de usar “mãe” pra designar quem tem bicho ou planta tá errado.

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