Pretensões e Desabafos

Para a mulher da minha vida

Elena,

Na última semana foi celebrado o dia Internacional da Mulher e eu pensei muito em escrever uma carta para você, a mulher mais importante da minha vida.

Eu queria dizer que você pode tudo, como já disse outras vezes, mas depois disso escrito na minha cabeça, depois de pensar melhor à respeito, cheguei à conclusão que não, não é verdade. Pelo menos não uma verdade absoluta.

Por ser branca, por ter nascido num país de primeiro mundo, numa família de classe média e bastante liberal, você pode muito. Pode ser princesa, pode dirigir caminhão, pode usar rosa e pode não ter a orelha furada.  Pode muito mais do que todas as gerações de mulheres que vieram antes de você

O que você não pode, minha filha, é perder de vista a situação de tantas outras que não podem tanto.

Elas são muitas e estão em todos os lugares. Criam filhos sem a participação ativa dos parceiros. Enfrentam jornadas duplas, triplas. Tem salários inferiores ao dos homens ainda quando desempenham o mesmo papel. Deixam a escola mais cedo do que os meninos. Casam-se quando deveriam estar brincando de bonecas ou carrinhos.  São obrigadas a continuarem gestações não desejadas, a se cobrirem, a se darem ao respeito, a domarem os cabelos. Muitas perderam até um direito que tiveram por séculos, o de parir. Perderam também o direito a um corpo imperfeito, a envelhecer. Isso sem falar das que são mutiladas, das que são usadas e descartadas como objeto sexual, das que perdem mais do que direitos, das que perdem a vida.

A luta dessas mulheres é também sua, não importa quantos privilégios você tenha e elas não. Não importa a sua cor ou a delas. Quando a gente se identifica com o outro a dor dele é nossa também assim como a responsabilidade de mudança.

Então, vai filha. Aceite as flores nesse dia de comemoração, sim, mas toma para si também a luta.

Vai ser um pouco Pagu, Rosa, Anita, Olga, Frida, Malala.

Vai ser mulher e se orgulhar disso.

O mundo inteiro agradece.

Mamãe.

 

 

 

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39 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

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