depressão Pretensões e Desabafos

Um dia um dia melhor chega (pouca serotonina e muita força de vontade)

Há pouco mais de 18 anos eu convivo com crises de ansiedade e depressão. Passei por longos períodos de cama, crises passageiras, altos e baixos, dias muito mais do que ruins, períodos de medicação pesada e outros de dosagens mínimas, homeopatia, meditação, terapia. Passei por médicos, psicólogos, psiquiatras, grupos de apoio.

As primeiras crises tiveram “gatilhos” claros, ou seja, uma situação (no meu caso estresse) que desencadeava uma série de sintomas depressivos. Com o passar dos anos e com a ajuda da terapia aprendi a identificar e, mais importante, evitar esses gatilhos [eu sei, por exemplo, que se comer bem e me exercitar aguento melhor qualquer cansaço ou situação de estresse e sei também que uma noite mal dormida é motivo de preocupação]. Depois alterações hormonais também causaram episódios graves (durante as três gestações, por exemplo) e outros nem tanto, tirando de mim o pouco controle que eu tinha sobre a doença.

Quando a depressão acontece mais do que algumas vezes, as chances de voltar a acontecer são enormes. Além disso elas acontecem com intervalos cada vez menores (minhas duas primeiras crises tiveram 10 anos de intervalo entre cada uma delas enquanto só no último ano sofri pelo menos 3 ou 4 episódios). A opinião médica a essa altura da minha vida era, portanto, a de que eu não poderia mais viver sem a medicação, apesar da minha vontade de procurar terapias alternativas e conviver com a doença de uma maneira mais natural.

Cabe dizer aqui, pela milésima vez nesse blog e vida afora, três coisas fundamentais sobre a doença e minha história com ela:

1) depressão e tristeza são coisas diferentes. Eu nunca fui triste e os últimos anos têm sido sem dúvida os mais felizes para mim, cheio de realizações e momentos importantes. A vida que eu levo eu não trocaria. Meu casamento é feliz, meus filhos são saudáveis e tenho a sorte de poder abrir mão do trabalho fora para cuidar deles pessoalmente (um desejo meu), tenho amigos, uma família com quem contar e amo viver na Irlanda;

2) minha depressão não é sazonal (o que é muito comum em países onde o inverno é rigoroso e o sol aparece pouco) e não há vitamina D (eu tomo suplementos) ou luz do sol que a leve embora. “Sair mais”, “ver os amigos”, “olhar ao redor”, “pensar nos filhos”, “fazer um esforço”, ou nada dessas coisas que as pessoas dizem com a melhor das intenções faz diferença quando meu cérebro para de produzir serotonina;

3) depressão também não é sinal de fraqueza. Pelo contrário, para sobreviver à doença e necessário uma força gigantesca e o fato de eu ainda estar viva depois te tantas crises, só me faz mais forte. Também não sou louca, viu?

Há aproximadamente 4 meses sofri uma nova crise. Na época estava tomando uma dosagem mínima do antidepressivo de costume (2,5mg, ou seja meio comprido apenas, o que os médicos consideram ineficaz mas que para mim funcionava), estava me exercitando com frequência e fazendo uso da homeopatia, além de dedicar vinte minutos diários à prática de meditação.

Essa crise veio sem nenhum gatilho e pouquíssimos sinais. Estava vivendo um momento bem feliz, inclusive. Aprendia a dirigir, Erik começava a frequentar a escola, iríamos para o Brasil em breve, tinhamos milhares de planos.

Cheguei a voltar a me consultar com a homeopata que mudou minha medicação mas antes de sentir qualquer resultado me vi incapaz de qualquer reação. Adoraria ter dado mais uma chance para a homeopatia mas percebi que não teria tempo uma vez que tenho filhos que dependem de mim. Ian estava trabalhando bastante e não podia contar com a ajuda dele. Por conta própria aumentei a dose do antidepressivo de 2,5mg para 5mg, já que sabia que era isso que o médico faria antes de mais nada (a decisão de diminuir já tinha sido minha e somente comunicada ao médico que não concordou mas aceitou). Esperei algumas semanas, como de costume, para que o remédio começasse a agir mas de novo não vi resultado.

De um dia para o outro piorei muito. Fui levada ao médico. Estava tão mal que nem poderia ir contra a ideia da medicação. Cogitou-se uma internação, cartas de recomendação foram envidadas à um psiquiatra, em minutos localizaram um terapeuta que poderia me atender com urgência. Ian avisou no trabalho que ia passar o dia em casa, a sogra veio de Killarney para cuidar da casa e dos netos.

De todas, e foram muitas, foi minha pior crise. De todas, e foram todas muito difíceis, foi a mais assustadora.

Com o aumento da medicação o pior veio e passou. A sogra continuou vindo todas as semanas para me ajudar mas eu já não sentia mais necessidade da presença dela. Nem tão pouco quis escrever sobre isso porque só queria mesmo seguir em frente. Também não quis preocupar (mais) ninguém com o assunto, já que estava tudo sob controle.

O lado bom da história foram os benefícios trazidos pelo convívio com a minha sogra, que foram muitos. Com ela por aqui, passei de fato de aprendiz à motorista, entre tantas outras coisas. Se tem algo de qual me orgulho é que nesse período encarei o desafio de dirigir diariamente, mesmo quase sem forças para sair da cama.

Veio o Brasil, foi ótimo e me senti muito bem por lá. A volta foi ainda melhor. Voltei à academia, a me alimentar bem, voltei até a escrever por aqui. Também tinha recomeçado a correr, coisa que não fazia faz tempo.

Parecia que a vida tinha voltado a ser minha.

Até que na semana passada precisei voltar à médica para uma revisão. Concordei com ela que precisaríamos aumentar a dose de novo até chegar na dosagem máxima recomendada, por segurança. A prioridade agora é afastar possíveis recaídas.

O único problema é que as primeiras semanas com o aumento da medicação me fariam, ainda que provisoriamente, piorar mais uma vez. Dito e feito. Há uma semana tenho passado pelo pior. Não durmo quase nada à noite e durante o dia mal consigo sair da cama. São poucos os minutos em que consigo escrever ou ler (esse texto vem sido escrito há muitos dias) já que qualquer atividade me deixa exausta e eu pareço drogada boa parte do tempo. Não consigo caminhar, quem dirá correr. A sogra voltou a assumir a minha casa e sinto muita saudade (e vontade) de voltar a cuidar dos meus filhos.

Erik anda por aí dizendo que a mamãe está muito doente (o que me parte o coração). Elena voltou a acordar à noite para mamar e a enfermeira acha que ela faz isso pelo conforto de estar comigo.

Todos os dias faço um esforço enorme para pelo menos sair da cama por algumas horas. Tiro o pijama, tomo banho e arrumo a cama mesmo que só essas atividades já me deixem exausta e eu precise na sequência voltar a deitar. Às vezes consigo alimentar Elena, às vezes leio para o Erik. No sábado comi chocolate, folheei uma revista e ainda postei no Instagram, assim, na maior normalidade.

Assim os dias vão passando até aquele em que eu vou acordar com vontade de viver de novo.

N.

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39 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

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November 11, 2015
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27 Comments

  • Danielle

    Um abraço bem forte, não posso imaginar tudo isso. Mas a certeza de dias melhores e de pessoas que te amam e dispostas a passar por tudo isso com você, já deve deixar a caminhada mais clara. Beijos grandes!

  • Regiane

    Que barra! Mas tudo vai melhorar, melhora! A cada dia vai melhorar.

  • Marina Matos

    Nivea, querida! Vim deixar meu abraço apertado e dizer que sim, você é uma mulher forte e incrível. Logo vai chegar o dia que as coisas serão mais coloridas por aí, com certeza. Conte comigo mesmo a distância.

    Beijo beijo!

  • Paula Oliveira

    Melhoras, querida. Estarei orando por vc.
    xx

  • grace

    Ni,
    desejo que dias mais doces cheguem logo!! Não sei como é passar por esse problema mas com certeza ler seus posts me abriu muito mais a cabeça e o coração pra essa doença tão difícil.
    Beijo

  • Luciana - Canada

    Minha querida, esse ano tem sido duro por aqui tb. Um dia de cada vez e vc sabe que tudo vai ficar bem. Muita energia positiva pra vc e um beijo enorme nestes dois pequerruchos!
    Fica bem, meus pensamentos mais legais vao pra vcs.
    Lu

  • Priscila MS LIma

    Nívea, eu e minha mãe te desejamos melhoras, o tempo vai resolver isso. Não perca a esperança de que dias melhores sempre virão. Bjs

  • Camila Lins

    Oi Nivea,

    Espero que esteja bem.

    Acompanho o seu blog há bastante tempo e imagino que não é fácil conviver com a depressão. Como Psi tenho certeza.
    Agora, como futura Nutri, me questiono se sua alimentação está ajudando no seu tratamento. Acompanho sua rotina e vejo que você é excelente na cozinha. Muitos estudos mostram a relação da serotonina com a alimentação e eu, que sigo uma alimentação saudável (lê-se comida de verdade e pouco carboidrato), ando estudando sobre essas relações. Caso se interesse, pesquise sobre o assunto.
    Enfim, espero que fique bem.
    Bjs!

  • Luciana

    Um abraço apertado, desejo de boas energias e muita, muita força! E abraça a sogra por mim tb, sou fazona dela!!

  • Maíra

    Nivea querida, não consigo imaginar como é passar por isso.Tive uma depressão leve só na vida, e confesso que morro de medo que ela volte. Te desejo muita força e boas melhoras nos próximos dias! 🙂

  • Ana Paula

    Muita força para você e um abraço apertado X

  • Julie Santos

    Ni, desejo muita luz em sua vida!

  • angela

    Nivea, obrigada pela partilha!
    A sua franqueza e honestidade ajuda a desmistificar esta doenca. Obrigada pela sua coragem, pois assim esta beneficaindo muitas outras pessoas que sofrem de descriminacoes.
    Voce vai conseguir, um dia de cada vez …

  • Juliani de Paula

    Nívea, li esse texto com lágrimas nos olhos, minha mãe tem depressão, e durante minha adolescência teve várias crises graves, várias internações.
    Imagino o que vc passa. Tô mandando um monte de energia positiva, espero que logo você melhore!
    Beijis

  • Regina

    Oi Nivea
    Eu também moro no exterior e também já tive várias crises de depressão e síndrome do pânico em várias épocas da vida, então te entendo bem. Também fiz uso de medicamentos de tarja preta até florais de Bach, mas o que me ajudou até mais do que a medicação, apesar de ter precisado muito dela para sequer conseguir sair da cama, foi a terapia CBT. Nunca acreditei muito em terapia, mas depois que ví os resultados da CBT, minha opinião mudou completamente. Há 3 anos não tenho recaídas, graças a Deus. Te desejo tudo de bom e segura firme porque isso vai passar, assim como passou das outras vezes. Um dia de cada vez! Bjs e abraços!

  • Paula

    Nivea, muita muita força (que você já mostrou que tem!) nessa hora. Espero que logo você já esteja cheia de energia para correr atrás desses filhos lindos!

    Sou sua leitora há alguns meses – também moro na Irlanda e tive um bebê há pouco, e adorava ler seus relatos da gravidez (meu filho chegou em Abril, pouco depois da Helena). Entendo perfeitamente muitas das situações que você descreve por aqui. Tirar carteira de motorista, por exemplo, foi algo super estressante pra mim, por isso parabéns por essa conquista!

    Enfim, sou dessas leitoras que lê tudo mas nunca comenta, mas achei que hoje deveria te escrever. Que dias melhores cheguem logo <3

  • Mariana

    Querida Nivea, quando leio seus textos sobre a depressão, tenho a impressão de que você é uma fortaleza.
    Não é para qualquer um.
    Um grande abraço.

  • Cláudia

    Oi Nivea. Que relato incrível. A depressão ainda é uma doença muito mal compreendida e fico feliz por você não estar sozinha. Te desejo muito mais força de vontade para seguir com a vida, curtir seus filhos, sua família, seus amigos e sua casa. Um beijo.

  • Carol

    N. querida!

    Que vontade de te abraçar minha amiga! Seus textos me motivam tanto, me fazem rir e me dão força para lutar!

    Espero que você fique bem e saiba que tem muita gente boa nesse mundão que te adora e você nem imagina!

    Muita luz pra você!!!

    Beijosssss

    Carol

  • Vandira Luiza

    Oi Nívea , desejo que essa fase passe rápido e qu os dias sejam produtivos e doces! Lendo seu relato também senti vontade de te abraçar e repetir várias vezes que tudo ficará bem! Acompanho sempre sua fanpage e blog. Que Deus abençoe você e sua família linda! Beijo Vandira

  • Jamile

    Nívea, querida, sinta se fortemente abraçada. Entendo o que é passar por isso e desejo que a cada dia, esteja mais sob controle. Boas vibrações.

  • Alessandra Mosquera

    Olá Nivea. Estamos juntas nesta batalha. Sei muito bem como é duro e agora, como vc sabe, também estou numa crise forte. A sensação é horrível e só quem viveu sabe. Mas você é forte e vai sair dessa. Nós vamos. Um abraço forte!

  • Lila

    Minha irmã me mandou esse post pq eu passo exatamente a msm situação em relação a depressão. A única diferença é que ultimamente meu gatilho é minha sogra que insiste em passar dias na minha casa destruindo a rotina dos meus filhos. E eqnto isso acontece tds as minhas forças estão em não deixar a depressão me dominar. Desejo a vc que fique bem. Sei exatamente como vc se sente com filhos pequenos e depressão. Bjs

  • Veneranda

    Terminei de ler esse texto com um nó na garganta… por outro lado é admirável a sua lucidez e a sua garra!
    Torço para que fique bem, para que volte a enxergar cor e luz nos seus dias…
    E te mando meu abraço mais apertado e minhas melhores vibrações!

  • Natalia

    Um beijo, querida Nivea! A gente não se conhece mas você sempre teve a minha admiração. Espero que as coisas fiquem bem logo logo.

  • Carol Marques

    Oi Nívea, admiro muito a sua coragem de falar tão francamente sobre o assunto. Mando aqui muitas vibrações positivas pra você e tenha confiança que vai ficar tudo bem, pois não existe sofrimento ou dor que dure para sempre. Tive uma crise na minha vida e graças a ela, abri meu coração para buscar respostas às grandes questões existenciais da minha vida: de onde vim? quem sou? pra onde vou? o que estou fazendo aqui? por que sofro? Comecei a estudar o Espiritismo e encontrei todas as respostas lá, tudo fez sentido para mim e meu coração se acalmou. Independente do que você acredita, gostaria de colocar o seu nome na urna de vibrações do centro que frequento (se você permitir, claro), eles fazem um trabalho muito bonito à distância. Só preciso do seu nome, idade e endereço. um beijo grande, Carol

  • Luciene Asta

    Nivea, acompanho seu blog há um tempo, fiquei sem vir aqui e quando venho, leio esse post que me aperta o coração. Só me resta como leitora que torce sempre pelo melhor da sua família desejar isso, o MELHOR PRA VOCE E SUA FAMÍLIA. Voce vai sair dessa. Receba meu abraço forte.

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