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Minha amiga secreta é…

Então que eu não conhecia o blog da minha amiga secreta! Melhor coisa que podia ter acontecido porque eu adoro descobrir blogs novos e passar horas lendo posts antigos. Melhor hora também porque com o Natal e final de ano na casa dos sogros eu tive bastante tempo livre para colocar a leitura em dia.

Entre os tantos post que eu li, escolhi um relato de parto (porque será, né?) como meu preferido. Optei por não postar as fotos dela mas o link está no final do post para quem quiser conferir.

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Relato de parto do Francisco

Foram 38 semanas de preparação para um parto em casa. Na verdade, muito antes do bebê número 3 existir, a gente começou a pesquisar sobre o assunto e marcou um encontro com uma parteira para tirar dúvidas e ter certeza da nossa decisão. Dois meses depois, veio o exame de positivo. Pois bem, estávamos grávidos e decididos.

Durante toda a gravidez eu fiz o acompanhamento com o médico obstetra (primeiro um do plano de saúde, e depois um humanizado) e com a parteira. Amava minhas consultas com ela, afinal, não falávamos só do meu estado geral de saúde, mas trabalhávamos medos, relações, entrega e tudo mais que poderia influenciar meu parto. Foi mesmo um processo transformador durante toda a gravidez. E o trabalho de parto, ah, esse me marcou profundamente e confesso que até hoje estou tentando entender tudo o que aconteceu e me sinto grata pelo Francisco e por ele ter me ensinado tanto.Quando eu fiz 37 semanas a ansiedade chegou. Como eu estava tendo contrações de treinamento há meses, pensei: “esse bebê não vai demorar pra chegar”. A cada dia eu pensava: “será que é hoje?”. Bem. trabalhei essa ansiedade com a parteira, fui fazer acupuntura e veio uma certa calma. Não existia controle, o jeito era esperar.

Dia 25 de fevereiro, terça-feira

No dia anterior, vieram os pródomos. Contrações de 10 em 10 minutos a tarde toda, mas depois de umas três horas, passou. Amanheceu o dia, e umas seis e pouco da manhã, levanto para fazer xixi e penso: “nossa, dormi tão bem essa noite, zero contração. É, hoje é que não vai ser”. Na noite anterior, antes de dormir, rezei um pouco e pedi pra Deus me mandar um sinal de que estava chegando a hora. Meu maior medo era não perceber que o bebê estava chegando, não aproveitar o trabalho de parto. Rá, rá, rá, Tatiana.

Uma hora depois, sete e meia da manhã, acordo com um líquido escorrendo entre as pernas. “Marco, acorda! Minha bolsa estorou!”. “Tem certeza?”. “Tenho”, disse, já levantando e vendo o líquido escorrer pelo chão. “Liga pra Paloma, então”. Fui pro banheiro com o celular na mão, sentei na privada para deixar o resto do líquido escorrer e liguei pra parteira. Sabia que aquilo não queria dizer nada, bolsa rota não quer dizer que o bebê fosse chegar sequer naquele dia. Mas eu fiquei empolgada e feliz. Muito feliz porque estava perto de conhecer meu bebê.

Avisei quem tinha que avisar, meus pais, a fotógrafa e uma amiga que poderia vir ficar com as meninas, caso fosse preciso. Fui fazendo as coisas do dia, separando o material do parto e resolvi fazer uma malinha pro bebê, mas não a minha porque eu tinha certeza que não seria necessário. Meus pais chegaram e entraram no modo “arrumação” aqui em casa. E eu ia andando e o líquido descendo, toda hora alguém vinha com um pano para limpar o chão. E nada de contração. Depois do almoço, a minha parteira veio fazer um exame e viu que eu estava com 1 cm de dilatação e me disse uma coisa que ficou na minha cabeça depois que eu contei pra ela a história do sinal que eu tinha pedido: “eu queria entender uma coisa, por quê a pressa?”. Eu fiquei brava com ela naquela hora, poxa, como assim, por quê a pressa? Eu quero conhecer meu bebê, oras, não posso querer que ele ou ela venham? O fato é que estava acontecendo.

Ela sugeriu que eu fizesse mais uma sessão de acupuntura para ajudar acelerar o processo, não queria muito fazer porque queria que fosse uma coisa mais natural, mas no fim decidi que não custava nada tentar. E conversamos sobre a coisa do risco de infecção que a bolsa rota traz, alguns médicos esperam apenas 12 horas, já vi gente esperar 10 dias, eu e o Marco estávamos decididos a esperar 48 horas. Saí para caminhar com ele pra ver se ajudava, fomos até a igrejinha que fica aqui perto de casa e rezei por mim, pelas meninas, pelo bebê. Queria abraçar aquilo tudo o que estava acontecendo, todas as mudanças que estavam por vir e queria que meu bebê chegasse bem ao mundo.

No fim da tarde: sessão de acupuntura. Saí de lá já com contrações, mas nada ritmado. Cheguei em casa, demos jantar pras meninas, meus pais e meu irmão estavam aqui, mas tudo o que eu queria era ficar um pouco quieta e sozinha. Eles foram embora, as meninas dormiram e eu e o Marco resolvemos deitar umas dez da noite porque não sabíamos o que poderia acontecer e poderíamos precisar do descanso. Meia-noite e meia senti uma contração bem forte, tão forte que não consegui reagir. Não sei se porque eu estava dormindo ou deitada, mas doeu muito. Esperei virem as próximas pra começar a marcar e elas estavam bem ritmadas e doloridas. Liguei pra parteira e pra fotógrafa e pedi pras duas virem porque tinha chegado a hora.

Elas chegaram e eu parei de marcar as contrações. Elas vinham, eu sentia, e pronto. A noite foi virando madrugada enquanto eles montavam a piscina na sala, eu respirava e fazia minhas caras feias quando as contrações vinham, e as meninas dormiam no quarto. Vomitei algumas vezes também.

Quando começou a amanhecer, fizemos um toque: 4 cm de dilatação. A  Paloma sugeriu que eu tomasse um banho com o Marco para relaxar e pensar no que estava tardando o processo. E isso só desacelerou minhas contrações, que começaram a ficar irregulares de novo. Eu comecei a ficar ansiosa e frustrada, por que o trabalho de parto não avançava?

Dia 26 de fevereiro, quarta-feira

Amanheceu e eu liguei pros meus pais e pedi que eles buscassem as meninas. A ideia é que elas participassem do parto, mas na hora achei melhor elas ficarem brincando com os avós, não ia conseguir me concentrar com elas aqui.

A ordem dos acontecimentos fica um pouco embaçada na minha cabeça agora. Em algum momento, comecei a conversar com a Paloma sobre a perda do controle, desliguei o celular para não deixar a ansiedade da família inteira (que já sabia que eu estava em TP). saí para caminhar mais uma vez com o Marco, escutei música, fiz um relaxamento com ajuda da parteira e comecei a chamar pelo bebê.

Mais um toque 6/7 cm. Ufa. Finalmente, pude entrar na piscina. Assim que eu entrei, me bateu uma onda de alívio. Até que eu mesma percebi: para onde foram as contrações. Quinze minutos sem nada!

Então, bora sair da piscina. Na hora que eu ia levantar veio uma contração bem forte e eu senti o bebê descendo. Mas tudo tinha desacelerado de novo. Nãoooooooo! Almocei um sanduíche, cochilei um pouco. Nós quatro, eu, Marco, Paloma e a Ana, a fotógrafa, começamos a ficar cansados e de tempo em tempo alguém dormia uns dez minutos. E até aquele cansaço todo de todo mundo me incomodava também.

Fomos caminhar no corredor de novo e em algum momento, falei com a Paloma: vamos tentar fazer a meditação de novo? E lá fomos nós. Fiquei respirando e chamando o bebê em cima da banqueta de parto. Chorei e disse que não ia desistir, pensei no bebê, foquei mais uma vez na respiração e a coisa engrenou de novo.

No meio da tarde, as contrações começaram a ficar mais doloridas e eu sentia que o bebê estava descendo. Tava indo! Dei uma animada comecei a testar outras posições, vi que em pé as contrações viam melhor e fui sentindo a dor. E doía! E se eu me retraía, a Paloma falava: deixa vir. E eu comecei a deixar.Também comecei a soltar o grito, não tinha mais como conter, na verdade, eu precisa dele. A Paloma colocou um recado na porta pros vizinhos não se assustarem.

A noite foi chegando e as meninas saíram para comer alguma coisa aqui perto de casa, ficámos só eu e o Marco. Cochilamos um pouco, as contrações pararam um pouco quando eu sentava ou relaxava, depois conversamos, nem me lembro o quê, e começamos a ficar em pé pra ver se as contrações vinham. E elas vieram de novo com força, bem perto uma da outra. A parteira e a fotógrafa trouxeram comida japonesa pra gente, consegui comer um pouco e sentei na bola pra sentir as contrações. A parteira foi descansar e ficamos só nós na sala mais uma vez. A Ana tava quase dormindo também e eu ficava “vamos, gente, ânimo! vamos ter esse bebê, não desanima não”. Andei, fiquei em pé, senti as dores. Fui percebendo a madrugada chegando e era como se o meu ânimo estivesse indo embora também.

Dia 27 de fevereiro, quinta-feira

Resolvemos ir pro meu quarto. A fotógrafa ficou descansando na sala, o Marco deitou na nossa bola e eu fiquei apoiada na bola com a Paloma nas minhas costas fazendo massagem. E ela dizia: “tenta relaxar, descansar”. E eu: “não, eu quero ter esse bebê. Por que ele não tá vindo?”. Comecei a me desconectar de novo, não sabia mais o que pensar. Ah, como eu queria ver aquele bebê! E foi aí que eu falei alto pra parteira o que eu não queria admitir: “Paloma, eu não tô conseguindo visualizar ele chegando, não consigo imaginar o expulsivo ou a gente nos hospital, não consigo ver ele nascendo!” A minha sensação é que aqueles momentos de dor e de tentar vencer alguma coisa que eu sequer sabia o que era não ia terminar nunca. Eu estava cansada, todos estavam cansados e naquele momento eu senti que estava tudo desaparecendo da minha frente.

Foi quando a temida conversa, por todo mundo que deseja e quer um parto humanizado em casa, aconteceu. Era hora de ir para o hospital. A minha primeira reação foi, obviamente, dizer não. “Não quero fazer outra cesárea, por que ele não nasce? Eu tô chamando, eu quero que ele venha, eu tô pronta”. Conversamos eu, ela e o Marco e no meio de tudo aquilo, eu sabia que não ia ter volta. Pedi pra Paloma fazer mais um exame de toque e os 6/7cm ainda estavam intactos. Isso, é claro, me desanimou horrores e me fez admitir que era hora.

Demoramos um tempo para arrumar as coisas, ligar pro médico e lá fomos nós pro hospital umas 2h e meia da manhã. Foi um longo caminho e as contrações no carro estavam fortes, aproveitei e gritei horrores. Chegamos lá não tinha quarto, ainda tentei conversar com o médico sobre tentar induzir e essa parte ainda ficou meio confusa pra mim, até que eu mesma admiti meu cansaço e falei: tudo bem, vamos lá ter o bebê.

Fizemos todos os procedimentos, anestesia foi horrível e foi tudo tão rápido que quando eu percebi o médico já estava perguntando se ele poderia falar qual era o sexo do bebê ou eu queria descobrir sozinha (quando o pediatra trouxesse pra mim). Eu já tinha combinado com a Paloma que queria que ela falasse assim que ele ou ela nascesse. E foi ela mesmo quem disse primeiro, bem baixinho, enquanto fazia carinho na minha cabeça. “É um menino”. Era o Francisco. E essa foi uma das maiores emoções da minha vida. Olhei pro Marco e ele chorava muito, feliz. Nos nossos olhos cansados estava a felicidade pura. Um menino.

Ainda que o parto não tenha sido do jeito que eu queria ou imaginava, aquele era o nascimento do meu filho. Foram nove meses de preparo, cuidado e transformação não somente para parir, mas para recebê-lo nos nossos braços. Para sermos cinco. Não sinto que eu fracassei em relação ao parto, é claro que fiquei triste por não ter parido em casa do jeito que eu tinha sonhado, mas eu tentei. Tentei com todas as minhas forças, tentei muito e não me arrependo. Tentei e mudei, aprendi tanto nessa jornada do parto humanizado, conheci pessoas maravilhosas, enxerguei o outro lado, me senti cheia de vida como grávida e como mãe, tive segurança nas minhas decisões. O mais importante é e sempre foi o Francisco. A gente não se torna mãe apenas quando dá a luz, ser mãe é um processo e é preciso entender isso. O parto é apenas a porta de entrada para um longo, desafiador e pleno caminho. E como estou feliz de fazer isso de novo e para sempre, com Maria, Bella e Francisco.

Preciso ser piegas e escrever mais um pouco:
Não tenho palavras para agradecer o apoio e o carinho da minha parteira, a Paloma, não apenas pelo suporte no dia do parto, mas por ter me ensinado tanto e mostrado diferentes direções durante esses quase nove meses de gestação e que ainda faz parte das nossas vidas. Foi muito bom ter você ao meu lado nesse caminho.

Também ficaremos eternamente agradecidos à Ana Paula por ter tido tanta paciência e por ter ido muito além das fotos no dia do parto, ela fez parte do processo todo e me deu apoio em vários momentos. Tão lindo ver alguém que trabalha com amor.

Obrigada aos meus pais por entenderem minha decisão de tentar um parto em casa e me apoiarem hoje e sempre, e me mostrar o que é o amor incondicional. Sem eles nada disso teria sentido.

Para o Marco, meu agradecimento todos os dias por fazer parte da minha vida, por eu ter tido a sorte de encontrar o amor da minha vida. Por ser meu parceiro e ter mudado junto comigo enquanto esperávamos Francisco. Obrigada por ter me dado a oportunidade de viver meu sonho, de ter uma família do jeito que eu queria, essa é nossa maior realização.

Manual da Família Moderna – Relato de parto do Francisco, por Tati Sabadini

***

Tati, adorei conhecer mais sobre você e sua família.

N.

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39 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

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