babóg Pretensões e Desabafos

O que importa nessa vida

Eu sou educadora, por formação e vocação.

Acho que esse foi inclusive um dos fatores que falaram mais alto quando optei por deixar de trabalhar e ficar em casa com o meu filho. Eu acredito que a educação transforma e que ela começa justamente em casa.

Não ensino os números, ou o alfabeto, nada disso. Isso ele tem o resto da vida para aprender e deixaremos esse papel para a escola. É até meio contra a minha vontade que ele aprenda certas coisas muito cedo, já que eu acho que ele ainda é muito pequeno. Adoro quando recebemos os desenhos dele da pré-escola e percebo que ele pinta tudo fora das linhas, que não segue nenhum padrão de cores. Fico feliz porque ele ainda é criança e essas coisas não importam na vida dele. Se pudesse, adiaria a entrada na escola mais um pouco, só para ele manter essa inocência infantil por mais tempo.

O que a gente faz em casa é trabalhar com coisas muito maiores e mais importantes. Incentivo desde sempre sua independência. Acredite, ninguém mais do que eu, que tenho mania de organização e de controle, teve que se adaptar à sujeira e à bagunça que isso faz. Ou você acha que ele nasceu sabendo comer sozinho?

Ensino tolerância, respeito e responsabilidade. Ensino a abraçar, beijar e dizer eu te amo na hora que ele quiser. Sempre tenho tempo para uma estória e quando ele pede um carinho (e as duas coisas acontecem com muita frequência). Acredito que dessa maneira eu ensino que ele é importante.

Incentivo brincadeiras de todo o tipo, de massinha a macarrão. Pintamos os vidros da sala, a banheira, até papel. Deixo brincar de lego no meio da sala, construir trilhos de madeira no meio da cozinha enquanto eu faço o jantar. Deixo ajudar na cozinha, deixo bater bolo, pinto a unha do pé se ele quiser. Aqui não existe brincadeira de menino ou de menina e tudo pode, desde que não machuque ou faça mal. A casa vai voltar a ficar impecável em alguns anos, agora isso é o de menos.

Ensino que na primavera a gente pode sair e olhar as flores, ou chutar as folhas no outono. Não tem tempo bom ou ruim para sair de casa e brincar lá fora. Se está frio, usa-se casaco, toca e luvas. Se chove, galochas. Se está calor pode tomar sorvete.

Ensino pular poças d’água, rolar na grama e todas essas outras coisas que uma criança de 3 anos e meio DEVERIA saber.

Outro dia aí, me superei. Ensinei pra ele uma coisa que aprendi com a minha mãe:

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Pão com ovo. Pão torradinho, ovinho de gema mole. Mostrei para ele como molhar o pãozinho no ovo e comer.

Ou seja, só o que é fundamental para ser feliz. Ou vai dizer que você é feliz sem pão com ovo?

N.

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39 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

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44 Comments

  • Luciana - Canada

    Nivs, esse teu post me tocou muito. Penso exatamente como vc e nunca apressei a Sophie em nada. Respeito o tempo dela e acho que a ensinar eh diferente de educar.
    Ja ouvi que era bizarro ela nao conhecer as cores aos 18 meses, que tirar as fraldas aos 3 era tarde e que saber escrever seu nome com menos de 2 anos e meio era o correto! Ja ouvi tanta coisa burra! rsrsrsrs
    Enfim, acho que nosso papel eh criar seres humanos, homens/mulheres bons, de familia, engajados, independentes e acima de tudo pessoas felizes.
    Pressa pra que, ne?
    Acho o Erik sensacional! super estimulado, um amor, extremamente esperto e olha que nem conheço ele pessoalmente.

    Beijos nos 4!

    ps. E antes que alguem me taque pedra, Sophie com seus 3 anos esta devidamente desfraldada (dia/noite), conhece todas as letras e boa parte das cores em 4 linguas e sim, ela nao so reconhece como monta com as letrinhas seu nome (menos o sobrenome, pq ne? ate eu tenho que pensar pra escreve-lo hahahaha). 🙂

    • Luciana - Canada

      Ah, esqueci de falar! Nao, ninguem pode ser feliz sem pao com ovo! 🙂

    • Nivea Sorensen

      Eu penso exatamente assim, Lu. Se a Sophie soubesse soletrar o sobrenome você deveria ver esse QI dela, haha x

  • grace

    Até emocionei aqui!! Realmente são essas as coisas mais importantes dessa vida… quando lembro da infância lembro da minha avó sempre abraçando e fazendo alguma coisinha especial que a gente adorava e do meu avô colocando suas musicas caipiras no toca fitas do carro pra gente passear!!

  • Natália

    Dá um frio na barriga só de pensar no tamanho da nossa responsabilidade em criar gente! E vc está fazendo isso MUITO bem!
    Pão com ovo é tudo de bom! E para o seu pequeno E. que é comilão, deve ter sido um dos melhores aprendizados sobre as coisas boas da vida 😉
    Bjs

  • Dani Bispo

    Nuncaaaaaaaa Nivea, pão com ovo é confort food!
    Amei o texto, pode ter certeza que você é uma mãe muito especial!
    bjs
    Dani Bispo

  • Thais Bessa

    Eu acho que educação e ensino são coisas diferentes! Inclusive concordo con a teoria de que Min da Educação deveria ser Min do Ensino. Tenho um siricotico quando ouço alguém dizendo que escola tem que educar. Vc está certa, quem educa, passando isso tudo que vc mencionou, são os pais.

    Mas eu acho que uma coisa não exclui a outra. Aqui em casa tentamos focar em tudo: nos valores, na independência, na quebra de precinceitos, mas também fazemos muitas atividades pro “acadêmico”, ensinamos cores, shapes, números, letras etc. Eu acho que o cérebro não tem um HD limitado, na idade deles então, é uma esponja!

    Bjs

    • Nivea Sorensen

      Thais, eu concordo com você mas pelo pouquíssimo que eu conheço virtualmente das suas meninas, elas gostam desse tipo de incentivo, né? Eu acho isso ótimo e muito válido. O que eu realmente sou contra é quando é ensinar crianças certas coisas antes do tempo e contra vontade delas. Erik sabe cores, números, alfabeto, formas geométricas (desde bebê inclusive) mas aprendeu tudo brincando. Acho que essas coisas podem ser aprendidas mais tarde sem nenhum prejuízo para a criança. Erik prefere exercitar a criatividade e é isso que eu acho mais imporante agora.
      x

  • Bárbara Hernandes

    Nivea, achei lindo seu texto e tenho refletido muito sobre o assunto já que há mais de 1 ano tenho convívio com crianças aqui na Irlanda.

    Na primeira família que trabalhei eles focavam muito nessa coisa de saber as cores, o alfabeto, os números, a pintar dentro do contorno do desenho. As meninas eram bem interessadas e se sentiam felizes em mostrar que sabiam essas coisas, mas de forma geral, acho que elas eram muito bem estimuladas e sabiam também de muitas coisas aleatórias (direções, geografia, relações familiares).

    Já a atual família para qual trabalho não estimula taaanto os meninos assim não. Na verdade, acho que eles deixam os meninos numa certa bolha, num certo mundinho. Não sei. O mais velho adora arte (família toda do pai é pintor, desenhista, etc) e adora construir coisas, e isso eles estimulam bastante, mas no geral, acho que eles deixam os meninos meio soltos.

    E pão com ovo, pão com ovo é foda! Mas eu gostava com pão francês! 🙂

    • Nivea Sorensen

      Bárbara,
      Eu penso muito nisso desde que ele nasceu. Eu não posso falar das crianças que você cuida ou cuidou porque não as conheço como você.
      Eu só acho que incentivar e pressionar são coisas bem diferentes mas com limites muito próximos. Se as meninas gostavam dessas coisas, acho ótimo o incentivo. Mas já vi por ai gente tentando ensinar a criança a escrever ou cobrando que ela saiba alfabeto e números sem direito a falha. Elas são crianças e tudo tem seu tempo. Pode ser perigoso colocar essa pressão numa criança tão novinha. Não vejo mesmo nada de errado em pintar fora da linha. Ou quando ele quer pintar o céu de roxo. E daí? Ele vai aprender isso com o tempo, não tenho dúvidas.
      Já os meninos meio “soltos” eu não sei exatamente o que você quer dizer, mas acho até que pode ser positivo. De novo, são só crianças. “Soltas” as crianças também exercem sua criatividade, o que pode ser mais importante do que saber qual a capital da Inglaterra, por exemplo.
      x

  • Ingrid

    Adoro a forma como voce cria o E. Quero ser educadora assim como voce quando um dia tiver minhas kids. *-*
    Esse post me deixou com tanto desejo de pao com ovo que tive que pedir um pao emprestado para o meu roomate para preparar para mim haha
    Beijo!

  • Ana Luísa

    Confesso que sou bem feliz sem pão e ovo, mas me emocionei com esse post! <3

  • bianca

    Que lindo esse texto !!

  • Thais

    Emocionante e sincero. Tudo o que uma criança precisa e nós temos condições de oferecer. Seu filho tem uma mãe maravilhosa e parabéns por “introduzir” o pão com ovo – já fiz monodieta disso na faculdade e era meu menu preferido quando estava grávida e não conseguia comer comida!

    Meus filhos adoram quando eu deito na cama e deixo eles brincarem de fazer tatuagem em mim… quando eu desperto estou toda pintada nas costas, mãos, pernas, pés… uma obra de arte, rsrsrs!

    Beijos pra vocês!

  • Bibi

    Nívea, não mudaria uma vírgula do que você escreveu. Me vi ali no texto.
    Também acho que é em casa que se dá educação. Que tempo pra brincar, pra dar atenção e conversar com os nossos pequenos nunca é demais.
    Não me preocupo se a Nina sabe contar até 2, 5 ou 10… se ela sabe as letras do alfabeto, se ela sabe falar inglês. Porque inteligência pra mim não é isso. Inteligência é saber raciocinar, conversar, sair de um problema,dar uma resposta, ter capacidade de aprender sobre a vida. Essas outras coisas a escola ensina, e mais tarde.
    Para mim, o importante é o desenvolvimento. E muito desse desenvolvimento é minha responsabilidade enquanto mãe. E do pai. Do quanto mostramos a vida pra ela, do quanto ensinamos e conversamos.
    Eu era daquelas pessoas organizadas, chatas pra limpeza. E tive que aprender a mudar. Mas também encontrei um meio-termo. Pra ela aprender a desorganizar e organizar depois.
    Isso são valores que passamos para eles. São ensinamentos.
    Bjo.

    • Nivea Sorensen

      Bibi, eu hem me aprofundei no texto porque não era esse meu intuito (era só uma brincadeira com o pão com ovo mesmo) mas eu tenho a mesma visão de inteligência. x

  • Natália

    Não sou mãe, nem tentante e minha vida com meu marido ainda se resume ao “queremos/não queremos ter um filho”. Não me lembro bem quando me deparei com seu blog, mas virei uma leitora assídua. Adoro a forma que você escreve e nos brinda com suas experiências e doçura. Adoro, ainda mais, a sua abertura e as coisas que vêm ensinando para o filhote. Parabéns! Tenho certeza de que, acima de tudo, você está criando uma criança que será uma pessoa do bem. Um ser verdadeiramente humano. É inspirador!

  • Karen Rito

    Texto lindo, lindo, lindo.. Emocione-me até!

  • Gabi Ramalho

    Que delicadeza de post e que delícia de infância!!!
    Sorte a nossa e mega sorte a do E.!!!

    Beijos

  • Liza

    Post lindo! Se todas as maes criassem filho com todo esse amor o mundo seria muito mais bonito. Beijos pra voces

  • kel

    Adorei o post…cada coisa a seu tempo, e cada um tem seu próprio tempo….pão e ovo também me faz feliz, mas não com a gema mole rs.

  • Caroline Costa

    Nossa que post mais lindo!
    Que bom que todas as mães educassem assim e ensinassem esses valores, pq realmente a felicidade está nas coisas pequenas e simples.
    E realmente lá em casa pão com ovo faz a felicidade dos meus pequenos e a minha tbm! =D

  • Alessandra Mosquera

    Também penso assim. Eu acho uma bobeira tao grande ficar exigindo que a criança pinte dentro da linha, que saiba um montao de coisas… nao sei, eu acho que elas terao muito tempo para aprender isso! Eu só aprendi a pintar dentro da linha mesmo creio que com 7 ou 8 anos… antes eu sempre saía. Eu acho errado exigir isso de uma criança de 3 anos.
    Em casa, nós fazemos muitas atividades também, pelo menos sempre que posso. Adoro a filosofia montessori, me senti muito identificada e encontrei muita lógica nela, por isso procuro fazer com o Izan muita vida prática e experiências sensoriais. Realmente, eles crescem tao rápido, agora é a hora de curtir essas pequenas coisas.
    E se você pode realmente esperar um pouco para coloca-lo na escola, faz muito bem. Eu nao pude escolher porque trabalho, mas dentro da situaçao que estamos, até que a escola dele nao é das piores.

    • Nivea Sorensen

      Alessandra, eu concordo com você. Apesar da simpatia pelo método montessori nunca me aprofundei no assunto. x

  • Mari Spil

    Nívea, AMO a simplicidade com que você vê a vida e passa para teu pequeno. É lindo e com certeza ele aprende esses valores e aprende a se sentir extremamente valorizado, e aprende as coisas que importam na vida!
    Um abraço!

    • Nivea Sorensen

      Mari,
      Uma coisa que eu aprendi com a maternidade é que a gente não ensina nada mesmo, a gente simplesmente é o que é e eles aprendem com isso. x

  • Thais

    Lindas as suas palavras, Nivea. Lendo, percebe-se toda a sua dedicação ao seu pequeno…

  • Viviane

    Oi Nivea,

    Já tem um tempo que não venho aqui ler seus posts, Só que hj lendo muitos deles confesso me deu uma sensação de bem estar, não sou mãe com certeza não compartilho dos mesmos sentimentos que você, mas penso que se uma dia eu tiver um filho quero fazer exatamente isso ensinar o fundamental para ser feliz fico feliz com a delicadeza como vc divide as suas histórias, obrigadaa.

    Bj

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