depressão Gravidez

Hormônios & Demônios

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Quando engravidei do E. demorei 8 semanas para descobrir a gravidez. Durante essas primeiras semanas achei que estava com depressão novamente.

Estava muito feliz, num dos melhores momentos da minha vida, tinha me casado há menos de 6 meses e começava finalmente a trabalhar depois de um bom tempo de procura por emprego. Não tinha nenhum motivo para explicar porque eu não conseguia parar de chorar e porque não via graça em nada. Estava muito irritada e tudo era motivo para me tirar do sério. Quis me isolar e assim que I. chegava em casa eu ia para a cama, para ficar sozinha. Ele se assustou com meu estado (chegava em casa e eu estava lavando a louça e chorando de soluçar) e resolvi procurar ajuda. Voltei a fazer terapia mas, como eu disse, não tinha nenhum motivo para explicar a depressão (meu “gatilho”, aquilo que desencadeia a minha depressão, sempre foi o estressse, que naquele momento não estava presente na minha vida). Ainda assim aquilo era um início de depressão, não dava para negar.

Foi aí que descobri a gravidez e tudo fez sentido. O médico me explicou que algumas mulheres são extremamente sensíveis à mudanças hormonais (aquelas que sofrem de TPM) e que essas podem de fato apresentar sintomas de depressão durante o primeiro trimestre. Verdade mesmo porque eu, antes de começar a tomar anticoncepcionais sofria muito durante o periodo menstrual, ficava mais do que irritada e sempre muito depressiva.

Saber a razão daquilo, ou melhor ter uma explicação racional, médica, para aquilo que eu vinha sentindo fez tudo ficar mais fácil e ao final do primeiro trimestre os sintomas sumiram mesmo.

Na segunda gravidez o negocio foi mais sério. Logo de cara, comecei a dar sinais de depressão e uma irritabilidade que eu nunca tinha visto na vida. Queria explodir ou matar alguém. Brigava com I. diariamente. Gritava com E. A vida virou um inferno. I, sempre tão paciente, não conseguia mais lidar comigo. Quebrava pratos e louças, batia portas, cravava as unhas no braço ou nas pernas até sangrar, me trancava no banheiro e gritava até a garganta doer. Quando não estava nesse estado de nervos, estava chorando. A gravidez durou 11 semanas até o aborto em si e foram as piores semanas da minha vida.

Foi o primeiro sinal de que eu estava grávida de gêmeos. Enfiei na cabeça que só hormônios em quantidade dobrada fariam aquilo comigo. Dito e feito.

Engravidei novamente na sequência, dois ou três meses, não sei ao certo, e tudo começou novamente. Em menor escala, é verdade, mas todos os sintomas estavam lá: irritabilidade, estresse, ansiedade. Estava de novo com depressão.

Procurei tratamento com a homeopatia e estava esperando o final do primeiro trimestre para que tudo passasse. Não passou. Tive minha primeira consulta com o psiquiatra da maternidade (até então era só uma consulta de rotina por causa do meu histórico) com 16 ou 17 semanas e ele foi categórico em dizer que eu não podia continuar daquele jeito. Me explicou algo que eu não tinha me dado conta até então, que a gravidez de gemeos com certeza me deixou vulnerável pela grande mudança hormonal e que por ter engravidado em pouco tempo, após um aborto antes do final do primeiro trimestre, meus níveis hormonais nunca voltaram ao normal.

Ele voltou a usar a mesma explicação, de que por ser ultra sensível meu cérebro não reage bem aos hormônios, que causam estresse e que o estresse em mim, particularmente, causa depressão. Uma reação puramente química que me deixa doente. Disse ainda que tudo poderia voltar ao normal dentro de dias ou semanas mas que eu poderia ficar assim até o final da gestação. Me explicou os riscos que o estresse pode causar ao meu bebê (baixo peso e prematuridade, na melhor das hipóteses). Disse que, do jeito que eu estava, muito provavelmente eu não chegaria às 40 semanas.

Ao contrário da gravidez do E., quando ele foi contra o uso de antidepressivos, dessa vez ele achou que seria o menor mal. Me garantiu que poderia receitar algo que não afetasse meu bebe (a essa altura já com todos o orgão formados) e que os possíveis efeitos colaterais seriam muito menores em comparação aos que são causados pelo estresse. Além disso, a chegada do bebê em meio à depressão só poderia piorar meu quadro.

Tive que concordar com ele mas não foi fácil. Chorei ali mesmo enquanto ele prescrevia o remédio. Passei na farmácia no caminho de casa e me senti um fracasso total. Há muito tempo não me sentia tão perdida e tão sozinha.

Por 3 semanas sofri com os efeitos colaterais da medicação, de um jeito que nunca tinha acontecido antes. Não conseguia dormir de jeito nenhum e passava boa parte da madrugada chorando. Tinha dores de cabeça fortíssimas e enjôos. A depressão chegou com tudo e quis morrer (é normal o remédio piorar muito o quadro no inicio do tratamento). Não tinha forças para sair da cama. Levantar e escovar os dentes exigia um esforço monumental. Só sentia um peso, um vazio enorme, uma ausência de qualquer vontade.

Mas tinha o E., que precisava de cuidados. E por mais que eu quisesse morrer eu não queria fazer meu filho sofrer. Então, eu levantei todos os dias, pelo menos nas poucas horas entre ir buscar o menino na escola e I. chegar do trabalho. Tive crises de choro no meio da rua, estranhos me perguntando se precisava de ajuda, mas com I. trabalhando muito e meus sogros de férias no Canadá, não tinha como deixar de fazer as coisas. Me forcei a comer pelo outro filho na barriga. Todos os dias eu me superei.

E sabe por que? Porque eu sou forte. Eu sou incrivelmente forte. Não tenho nenhum controle sobre a química do meu cérebro e não posso evitar essa doença, mas ainda posso controlar como eu lido com ela. E escolho sempre lutar, mesmo quando parece impossível.

Essa semana eu voltei a conseguir dormir. Já não tenho dores de cabeça ou enjôos. Ainda me sinto exausta fisicamente, mas caminho para ir buscar e trazer E. da creche, sem precisar pegar um ônibus. Saio de casa todos os dias, aos poucos volto a me alimentar melhor e me exercitar. Voltei a meditar, a escrever. Ontem fiz as unhas dos pés, hoje fiz as da mão. Fiz um bolo que está deixando a casa inteira cheirosa. Parece tão pouco, mas no último sábado eu nem consegui tomar banho.

I. já não me olha mais com tanta preocupação (ele que também é a razão de eu estar aqui) e E. já não me pede toda hora para não ficar triste.

Eu? Eu sigo cada vez mais convencida de que dessa dor eu não morro.

N.

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39 anos; brasileira que mora na Irlanda; mãe de um filhote de irlandês do cabelo vermelho e muito fogo na bunda, de uma pimentinha de olhos grandes e curiosos e de uma caçulinha que é só sorrisos.

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September 11, 2014
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35 Comments

  • Bibi

    Nossa, Nívea. Depressão é algo muito ruim mesmo. E na gravidez, então, nem se fala.
    você é como eu aqui: sozinha. Sem familiares por perto pra ajudar. E segurar tudo sozinha é difícil, mesmo quando marido ajuda e tals.
    Que bom mesmo que tudo está ficando melhor agora, depois da tempestade.
    Tudo vai dar certo sim. Tudo tem seu tempo.
    Te cuida.
    Bjo.

  • Marina Matos

    Nivea, saiba que eu te admiro muito. Sei que isso pode ser pouco, que é difícil (muito difícil mesmo) viver essa doença – passei bem perto dela (tomei remédio e tudo) na adolescência, foi barra – mas eu queria deixar registrado mesmo assim.
    Você é muito forte, uma mulher incrível.

    Beijo grande!

  • Fernanda

    Parabéns pela garra,N!
    Você é forte e não está sozinha, nós estamos juntas nessa luta diária contra a depressão e é certo que venceremos.
    Deus te abençoe!

  • Ananda Etges

    Nivea,

    Nem imagino o quanto as últimas semanas foram complicadas. Desejo que agora as coisas melhorem e que cada vez mais tu consiga curtir a gravidez, com mais tranquilidade 🙂

    Grande beijo!

  • Ana C.

    Nivea, não imagino o que vc sentiu, e ainda sente. pq nunca tive essa doença.. q as vezes é tratada como ” frescura” por muitos (ainda!!?). Mas tenho familiar q sofre com depresão. E não é nada fácil durante as crises. Então, te desejo força, e q vc consiga se superar a cada dia e vença cada crise que aparecer. Vc é forte e capaz. Envio um abraço carinhoso. Ah, e parabéns pela nova gestação.Que nha um bb cheio de saúde pra trazer ainda mais felicidade pra vc e sua familia! bjs Ana.

  • Mariana

    Posso te dar um abraço? Mesmo que seja virtual?
    Querida, esse post me encheu os olhos de água e me deu uma mistura de sensações. Fiquei meio angustiada, triste porque sei de verdade do que você está falando. Acho que só quem teve depressão ou conviveu com alguém que tivesse, sabe do que você está realmente falando. Por instantes, lendo sua narrativa, voltei para a minha cama, num quarto escuro… Mas, ao ler você contando que está melhor, que as coisas estão começando a funcionar foi como se eu visse a luz entrando no quarto. Toda aquela esperança de que vai dar tudo certo! Porque vai, tenho certeza. Aprendi duas coisas: a primeira foi viver um dia de cada vez, de preferência com uma boa noite de sono no meio. E a outra é que tudo passa.
    Estou feliz que a fase boa está dando o ar da graça!
    Abraço apertado!!!!

    • Nivea Sorensen

      Obrigada, Mariana. Seu comentário também me encheu os olhos de lágrimas. x

  • Martha

    Acabei de ler emocionada… Com sua força e sua dor ao mesmo tempo!!
    Acho que quando temos consciência das nossas dores e aparo (medico e familiar) tudo tende a, pelo menos, não crescer. E na maioria das vezes melhora muito.
    Eu que tenho tpm em alto nível to sentindo, ainda do alto das 23 semanas, todos os efeitos das alterações hormonais. Vou de gritar por nada, a ficar quieta encolhida no canto.
    Estava faltando horrores no trabalho.. aí um dia percebi que o isolamento não estava sendo útil para minha melhora fisica e, por mais que não esteja na minha melhor fase no trabalho, estar aqui me obrigava a não cair.. e isso é uma ajuda e tanto!!!
    Orgulho de vc… e muito feliz por vc compartilhar esses sentimentos tão dificeis que vc está superando e pode ajudar muitas pessoas a superarem tbm!!!
    Um beijo grande com um forte abraço!!!

  • Celi

    Ohhhh Nívea querida… toma cá meu abraço apertado! Imagino que tenha passado uns bons bocados, mas que bom que você é forte e segue em frente. Sei mesmo que temos momentos difíceis longe da família, do Brasil. Apesar que vc deve estar longe há bastante tempo. Imagino que quando uma pessoa entra na onda de depressão não deve ser fácil. Mas fique bem! Faça de tudo para vc ficar bem… sei que é fácil falar, mas procure exatamente ver tudo isso que escreveu no final do post. Veja tudo que tem ao seu redor de maravilhoso e procure pensar nas dificuldades e tristezas que há pelo mundo. Isso dá uma gotinha de animo e faz a gente olhar para frente, seguir adiante… Um grande beijo e estou na torcida para dias melhores, claros e alegres…

  • Louise

    Linda, você é uma guerreira! Te admiro muito mesmo. Estou na torcida!
    Deixa o Erik aqui conosco quando quiser e quantas vezes quiser. De coração!
    Um beijo!

  • Natália

    Viva a mulher forte que te habita! Acaba se tornando exemplo para muitas de nós! Estamos na torcida!
    bjs

  • Mari

    Flor,
    Tenho certeza que vai fica tudo bem, como sempre fica. Saiba que a sua história de superação inspira e alegra muita gente!
    Queria estar aí pra te fazer companhia, mas sei também que às vezes a gente só quer ficar sozinha.
    Sigo do lado de cá rezando por você. Ou melhor, por vocês.
    Beijo meu!

  • Renata Marques

    Texto que serve de motivação para cada uma de nós, mães, que em algum momento mesmo não estando tão afetadas pela depressão nos deixamos abalar ou mesmo desanimar. Muita força que você demonstra ter, por si e pelos seus amados, continue assim 🙂

  • Cintia Romano

    Ei Nivea, você é uma mulher e tanto, segurando a onda sem ajuda de parentes por perto. Tenho certeza que tudo ficará bem.
    Eu não estou grávida, mas estou com depressão e iniciei meu tratamento com remédio a pouco tempo. Já me sinto melhor, estou vivendo um dia de cada vez, por mim, pelo meu filho, pelo meu marido e pelas pessoas que me querem bem.
    Força pra vc, essa fase vai passar 🙂

    “Enquanto o tempo
    Acelera e pede pressa
    Eu me recuso, faço hora
    Vou na valsa
    A vida é tão rara’ (Lenine)

    • Nivea Sorensen

      Obrigada, Cintia. Lidar com um dia de cada vez é essencial para quem vive com depressão. No pior da crise eu precisei até tentar um passo por vez, por exemplo só levantar e escovar os dentes, depois só conseguir trocar de roupa… Espero que você fique bem x

  • Sarah

    Oi Nivea,
    Fiquei muito feliz com seu comentário lá no meu blog! Já te vi por aí, blogosfera afora (acho que no blog da Dani mesmo) e também no grupo Tentantes Empoderadas. Lembrei do aborto, acho até que deixei uma mensagem pra você lá no grupo, com um abraço.
    Não sabia que estava grávida novamente, parabéns! Parabéns também por ter procurado ajuda, escolhido lutar, escolhido ser feliz. Fico contente por você estar melhor, encontrando seu caminho.
    Ótima gestação pra você, vou te acompanhar também.
    beijo grande

  • Selma

    Oi Nivea, é a primeira vez que comento, mas estou sempre por aqui. Gostaria de parabenizá-la pela força e esforço que você tem, e dizer que é extremamente importante que você faça uma nova atividade por dia, pode ser uma coisa bem simples, mas faça, como fez as unhas, o bolo … e sempre pensar que essa atividade foi uma grande conquista, jamais pense no que deixou de fazer e o que gostaria de ter feito e não conseguiu. Um beijo. Selma

  • Luciana - Canada

    Oi Nivs, qto tempo!
    Nem sei o que te dizer alem de que sua dor eh a dor de muitos tambem. A diferença eh que vc da voz a ela e com isso ajuda tanta gente, sem mesmo saber. Eh uma doença solitaria essa tal de depressao. Aprendi a falar dela contigo. Obrigada.
    Minha ultima crise foi tao ruim que nem sei colocar em palavras o que senti e o que nao senti. A homeopatia me ajudou muito mesmo, junto com a bendita vitamina D.
    Te admiro demais, de verdade.
    Um super beijo pra vcs quatro!!
    Lu

    • Nivea Sorensen

      Lu,
      Super obrigada. Tinha me esquecido que você também passou por isso. Um beijo grande pra vocês.

  • Dani Rabelo

    Nívea, você é muito forte! Muito! Muito!
    Viver sozinha, em um país diferente, com marido de outra cultura (por melhor que seja, essa outra cultura atrapalha? Não sei mesmo), filho pequeno, depressão, gravidez…. tudo isso somado e misturado…

    Você vai ficar bem, pq já é vitoriosa. No mais, desejo que essa fase mais complicada termine e que o pequeno rebento chegue com muita saúde e te trazendo ainda mais motivos para ser feliz!

    Um grande beijo!

    • Nivea Sorensen

      Dani,
      eu realmente não sei se a cultura diferente ajuda ou atrapalha.
      Super obrigada pela força e um beijo grande em você e na suas meninas.

  • Katia

    Nossa vivo isso há 20 anos des de o meu primeiro e único parto, porém toda TPM me corre sempre pior os de casa ja acostumaram a me ver passar mal…só se importam qdo. Dou trabalho com a minha irritação q sempre tem um motivo concreto.
    Mas confesso q ja resolvi q ainda este ano faço uma histerectomia total!!!
    Ja sofri demais amiga não consego nem trabalhar…
    Parabéns pela determinação…

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